Bia Crispim

16/04/2021
 
Exorcismo e cura
 
Esses dias, eu fui chamada para participar de um evento sobre o tema da arte como ferramenta de cura na pandemia. Fiquei extremamente contente com o convite, o qual foi aceito prontamente. Realmente a arte, sobretudo a poesia, para mim, não só foi uma ferramenta e cura, mas também uma espécie de exorcismo dos medos e de tantas outras coisas que me atravessaram durante esse período.  
 
Nos três primeiros meses, entre março e maio de 2020, eu entrei em pânico dentro de casa. Tive crises de choro, baguncei meu relógio biológico, acordava no meio da noite sem um pingo mais de sono e a escrita ou a leitura eram minhas companheiras, consoladoras, que me ajudavam a por a cabeça em tranquilidade.
 
Escrevi mais de 70 textos nesse período. Coisas que um dia podem até se transformar em textos acabados (se é que eles existem), outros que aparentavam um resultado satisfatório, pareciam prontos, já.
 
Com um caderno (às vezes um bloquinho) e um lápis na mão, eu ficava brincando com as palavras. Escrevia, riscava, mudava, experimentava... Brincava de poetar...
Hoje resolvi compartilhar com vocês três poemas meus que foram produzidos nessas noites insones. O primeiro deles chama-se CONFINS DA MENTE. Ei-lo:
 
Por todo canto confidências,
sussurros escondidos sob o travesseiro,
por trás da memória,
no labirinto do ouvido,
nos olhares,
na tela bloqueada...
 
Revelações, 
evidências de um ser recluso,
escondido nas frestas, 
nos vazios horizontes da mente,
onde ser livre era um sonho,
quiçá um desejo balbuciado, 
soletrado passo a passo,
até chegar aos confins da mente...
 
Livre, completamente, livre.
 
O segundo poema que gostaria que vocês conhecessem foi intitulado de CHUVA. (Gosto de dar nomes aos meus textos). E aí está ele:
 
Chovia fora...
Dentro, relâmpagos me cortavam.
Eu trovejava, mas ninguém ouvia.
Águas em gotas cantavam alto.
Só dentro era capaz de se escutar e se ver aquele espetáculo.
 
E por último, clamemos um VIVA!!! à arte e à poesia que exorcisou e exorcisa ainda um monte de fantasmas indesejados, filhos dessa pandemia. Ofereço-lhes um terceiro poema: CICATRIZES.  Minhas cicatrizes. Afinal, a poesia me curou. Ei-las:
 
Pouco a pouco tornaram-se menores,
menos visíveis embaixo das cobertas.
 
Cobertas por cascas
Cobertas por pelos.
Pelos brancos 
(O tempo passou pra eles)
 
Passou para a pele
Pela pele
Pelos pelos
 
As cicatrizes se mimetizaram com o corpo
E já não se podia mais viver sem elas.
 
CUIDEM-SE! FIQUEM BEM!  E UM VIVA!!! À ARTE E À POESIA.