Bia Crispim

20/08/2021
 
Somos mais que genitálias
 
O que significa para uma mulher Trans/Travesti ser acolhida em um grupo, um coletivo, uma associação de mulheres cisgênero? 
 
LEGITIMIDADE! Tanto para a mulher Trans/Travesti, quanto para a mulher cis que passa a se entender por outros vieses além das questões anatômicas.
 
Quando uma mulher cis reconhece uma mulher Trans/Travesti por sua feminilidade e/ou mulheridade há uma quebra e uma expansão de como essa mulher cis se vê, se entende e percebe como ela foi construída pelos potentes discursos dessa sociedade sexista e patriarcal. Ela deixa de se resumir a uma vulva, à sua genitália. Ela enxerga a outra (Trans/Travesti) como alguém que não é diferente dela (cis) por não ter nascido vaginizada.
 
O discurso hegemônico reduziu e ainda reduz as mulheres (uso o plural visto que “mulher” não é uma categoria universalizada) ao seu genital e às funções que, diante dos homens, ele tem: Dar prazer (e não sentir) e procriar. Percebam que a genitália feminina é “do homem e para o homem” e reduz a visão que a sociedade, os homens e as próprias mulheres (cisgênero) construíram e constroem acerca das subjetividades femininas e daquilo que se entende por mulher.
 
Parte do empoderamento feminino e de mulheres se dá a partir do desprendimento desse discurso sexista que cria, como um efeito dominó, uma série de outras ideias que se atrelam a tal discurso, como a objetificação e a função meramente sexual (tanto de mulheres cis, quanto de mulheres Trans) e de procriação do corpo da mulher cisgênero, sobretudo, tendo sua genitália como foco; o sentimento de propriedade por parte dos homens,  consequentemente, seu controle, e as “punições” aplicáveis, que se iniciam a partir da diminuição do que é ser mulher até o feminicídio.
 
A inclusão de mulheres Trans/Travestis nesses espaços de coletividade, sororidade e de luta feminista são mais que necessários para alavancar a provocação de “O QUE É SER MULHER”,; necessário porque nós, mulheres Trans/Travestis, fazemos as mulheres cis se pensarem para além de suas vulvas, para além da maternidade, para além da fragilidade (acho engraçado quando dizem que mulher é sexo frágil), para além de conceito minimizador e universal de que MULHER É TUDO IGUAL.
 
Não, não... Não somos iguais, nunca fomos! Quando, dentro do feminismo negro, Kimberlé Crenshaw instrumentaliza o discurso feminista com a interseccionalidade, nos damos contas que atravessadores (além do gênero) como raça, classe (entre outros elementos em que nos constroem na sociedade) produzem mulheres, mulheridades, feminilidades distintas, assim como opressões, discriminações, violências, também distintas. 
 
A Travesti, negra, gorda, professora doutora Letícia Nascimento (essa descrição recheada de elementos atravessadores na construção de quem é Letícia é usada em respeito à própria pesquisadora que faz questão de assim se apresentar) em seu livro TRANSFEMINISMO da coleção Feminismos Plurais, coordenada por Djamila Ribeiro diz: “A partir do conceito de interseccionalidade, é necessário refletir não apenas que, como mulheres transexuais e travestis, possuímos múltiplos recortes identitários. Também é preciso observar que esses marcadores ampliam nossas vulnerabilidades sociais, e que as políticas públicas para a superação de nossas opressões precisam ser pensadas de modo articulado e localizado.” Esses múltiplos recortes identitários também são aplicáveis às múltiplas performances de mulheridades e feminilidades cisgênero.
 
Como afirmei anteriormente, “não somos iguais, nunca fomos!” e tomar ciência disso faz com que mulheres se tornem mais fortes, faz com que a existência, a luta e a resistência das mulheres cis e Trans/Travestis sejam legitimadas, faz com que possamos quebrar o estigma de que ser mulher se resume a ter uma vulva passível de controle pelo patriarcado, pelo heterossexismo.
 
MULHERIDADES, uni-vos! E lutemos contra esse encarceramento de corpos e mentes que nos impuseram como uma verdade absoluta, apenas com o intuito de nos dividir, nos enfraquecer e nos controlar. EMPODEREMO-NOS! O conhecimento também é nosso, e aprendermos com o que nos faz diferentes tem uma potência tsunâmica, de força inigualável. AVANTE! Somos mais que genitálias!