Kalina Paiva

27/10/2023 10h34

Crônica do Outubro Rosa

 

Em 2019, entrei para as estatísticas do câncer de mama. Tentei atravessar esse momento da melhor forma possível, mas acho que fui atravessada por ele com afetos, descobertas, apoio de todo o tipo que vocês imaginarem. Foram muitas as lições recebidas que guardo até hoje, pois elas me abastecem nos momentos de desânimo.

Em uma dessas situações, lembro de meus colegas de trabalho terem feito uma confraternização surpresa. Eles colocaram turbantes e dois deles, Carlos e Althiere, rasparam a cabeça. Na ocasião, eu estava no comecinho do tratamento e não esperei meu cabelo cair, decidi ficar careca. No fundo, sempre tive a curiosidade de sentir a água batendo direto no couro cabeludo.

Ontem, quando conversava com uma amiga que passou mais recentemente pela rotina oncológica, ouvi-a falar: “Quando recebi o diagnóstico, eu passei por uma fase semelhantes à do luto. Eu me questionava: por que eu?”

Essa fala me chamou atenção, confesso. As enfermidades não escolhem etnia, classe social, idade. Em primeiro lugar, o câncer aparece para sinalizar que precisamos olhar para nós, nos cuidarmos mais, enfim, nos amarmos. Pensar em um motivo pelo qual adoeceu é como buscar uma justificativa para se sentir culpado. Isso é o mais perigoso porque medo e culpa são dois sentimentos paralisantes que minam as nossas forças e são adoecedores, podendo levar à depressão.

Em segundo lugar, a mente precisa estar livre para enxergar a beleza da vida. Isso parece papo de autoajuda, mas se você, leitor, der um desconto e entender que essa pessoa aqui passou por isso, talvez eu receba algum crédito nesses conselhos.

Nesse Outubro Rosa, eu desejo mesmo que você ressignifique seu olhar e contemple o que é belo; dedique tempo a encontrar pessoas amigas; se permita brincar mais, viver mais. Não espere adoecer para mudar alguns hábitos. A doença se instala na desorganização do corpo, quando não dormimos direito, quando não comemos direito, e quando temos nossa esperança minada. A depressão é um fator desencadeador, sabia?

Vivemos em uma sociedade que cobra uma perfeição de nós, exaure nossas forças, suga nossos talentos, de forma frenética. Nosso corpo e mente precisam descansar das metas, dos números, das estatísticas, como bem dizia Fernando Pessoa, “Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. / Fora disso sou doido, com todo o direito de sê-lo.”

Nesse Outubro Rosa, enloucresça!

 

*ESTE CONTEÚDO É INDEPENDENTE E A RESPONSABILIDADE É DO SEU AUTOR.

 


*ESTE CONTEÚDO É INDEPENDENTE E A RESPONSABILIDADE É DO SEU AUTOR (A).