De Manaus/Brasil, reflexões sobre o valor da inclusão digital com a pandemia

01/08/2020

Por: Andrezza Tavares (IFRN) & Bento Silva (UMinho)
Foto: Ms. Wylnara Braga (IFAM)

De Manaus/Brasil, a pandemia reforçou a necessidade de se promover a inclusão digital

Entrevista internacional concedida ao portal de jornalismo Potiguar Notícias por Wylnara Braga, Mestre em Ciências da Educação, especialidade de Tecnologia Educativa, pelo Instituto de Educação da Universidade do Minho, em Braga/Portugal, mestrado revalidado pela Universidade Federal do Ceará (UFC). A entrevistada é assistente social do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas – Campus Manaus Zona Leste (IFAM/CMZL), em Manaus - Amazonas e da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SUSAM). Nesta entrevista, a assistente social fala sobre inclusão/exclusão digital, e sua relação com as desigualdades sociais, refletindo sobre os fatores que fazem com que a inclusão digital se possa fortalecer. Descreve a situção vivida no estado Amazonas, de Manaus, em particular, região muito afetada pela pandemia, e, para agravar, também é região com altos índices de exclusão digital. A concluir destaca o papel da escola que, embora não possa modificar por completo a desigualdade social, pode ser um local de transformação social. um agente transformador pois a educação tem o condão de garantia e de luta pelos direitos sociais. O mesmo também para a inclusão digital, pois é na escola que muitas crianças e jovens, sobretudo as que vivem em meios mais defavorecisos, contactam pela primeira vez com as Tecnologias de Inovação e Comunicação (TIC) e, mais importante ainda, aprendem a fazer o seu uso consciente, crítico e criativo, para aprenderem a viver juntos, em cooperação com os outros, num mundo cada vez mais globalizado. 

1. Temos conhecimento de que a vossa pesquisa de mestrado realizada na Universidade do Minho, em Portugal, versou sobre a Inclusão Digital. Qual a importância dessa temática no momento atual enfrentado pela sociedade?

De fato, o tema de minha pesquisa de mestrado foi Inclusão Social e Digital que tem forte relação com o atual momento provocado pela pandemia. A pandemia trouxe a necessidade de nos adequarmos ao mundo tecnológico, contudo, uma grande problemática necessita ser enfrentada, o aumento da desigualdade social sobretudo na região amazônica. Mesmo que grandes esforços estejam sendo feitos para dar continuidade à vida acadêmica, profissional e social, a internet não chegou em todos os lugares, impossibilitando que haja acesso aos bens e serviços da sociedade, dessa forma, a desigualdade social e digital aflora ainda mais em meio ao caos, para tanto há que se pensar em mecanismos ainda mais eficazes de inclusão digital para minimizar as lacunas existentes.

2. Como pesquisadora, é possível afirmar que existe relação direta entre novas tecnologias, direito humano e cidadania?

Para que possamos compreender a importância das tecnologias precisamos pensar do ponto de vista do direito humano e da cidadania. Partimos do pressuposto de que inclusão é qualquer atitude, política ou tendência, seja do ponto de vista econômico, político, educativo, ou outros, que integra, e que inclusão social é o conjunto de meios e ações que combatem a exclusão aos benefícios da vida em sociedade, provocada pelas diferenças de classe social, educação, idade, deficiência, gênero, preconceito social ou preconceitos raciais. Ora, se a internet é, portanto, um veículo que integra e que dá acesso aos bens e serviços, torna-se também um mecanismo de inclusão social a possuir. Foi este fato que motivou a ONU a afirmar, em sua resolução A/HRC/32/L.20 aprovada em 1º de julho de 2016, que a internet se tornou um direito humano e violar esse direito é crime (ONU, 2016).

3. O Brasil é o segundo país afetado pela pandemia no mundo, e o estado de Manaus, onde a pesquisadora Wylnara Braga vive e trabalha, foi um dos primeiros estados a colapsar no país, que aspectos marcaram este cenário pandêmico em Manaus?

Desde que se iniciou a pandemia, medidas de prevenção ao novo coronavírus foram adotadas, principalmente o distanciamento social. Manaus esteve entre os três estados brasileiros com maior índice de contaminação, fechando escolas, lojas, bares, restaurantes, entre outros. O cenário social que já não era dos melhores, se tornou ainda mais caótico, inúmeras crianças ficaram sem acesso à escola, ao lazer, sem contato com familiares, alguns adultos ficaram com dificuldades no trabalho remoto por falta de computador e rede de internet e houve até mesmo a elevação das taxas de desemprego, evidenciando ainda mais as expressões da questão social.

4. Sobre a inclusão digital no Brasil, e de modo particular no estado Amazonas, poderia informar números que expressam a interface entre sociedade e internet?

Segundo os dados do Internet World Stats (IWS) (https://www.internetworldstats.com)  , apenas 70,7 % da população brasileira faz uso de internet (dados referentes a dezembro  de 2017), ou seja, 30% população está excluída digitalmente, cerca de 62 milhões de basileiros. É muita gente que está excluida deste rede de comunicações. Além disso, no país há muitas assimetrias, inúmeras localidades não foram ainda inseridas no mundo digital, sobretudo no estado do Amazonas, cujo acesso ocorre predominantemente na capital, devido às dificuldades geográficas e de logística e por estar localizado na região norte que possui apenas 46% da população com acesso à Internet, conforme dados avançados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CETIC.br, 2017). Ou seja, nesta região, mais de metade da população sofre de exclusão digital.

Manaus é a única região metropolitana do Estado e é considerada a maior cidade em área territorial do mundo. Os rios formam sua maior rede de transporte e possui a maior população de índios do País (66 etnias e 29 línguas diferentes). No Amazonas, programas como Amazonas Digital; CDI Amazonas; Centro de Inclusão Digital – Manaus – CFF da Ponta Negra; Inclusão Digital no Meio da Selva, entre outras, surgiram como políticas públicas para este fim. Pensa-se que integrar o Amazonas ao mundo é um desafio que transcende sua dimensão geográfica, com muitas dificuldades de acesso, demanda investimentos em logística, infraestrutura, educação, para que a inclusão digital possa ser uma realidade existente.

O sociológo espanhol Manuel Castells, Ministro das Universidades do atual governo de Espanha,  explica, no livro “ A Sociedade em Rede – a Era da Informação”, que a Internet tem uma natureza revolucionária e é o tecido de nossas vidas.  Por isso, também decorre desse fato a importância de integrar os estados brasileiros aos demais países. O mundo caminha a passos largos quando o assunto é tecnologia, e o Brasil necessita avançar ainda mais nesse processo, a Internet reduz as distâncias, universaliza o conhecimento, abre novos e extraordinários horizontes.

5. Na pesquisa de mestrado realizada, que relaciona inclusão digital à inclusão social, quais resultados foram revelados em relação aos fatores que se associam à inclusão digital?

O acadêmico argentino Juan Carlos Tedesco, que chegou a ser Ministro da Educação da Educação da Argentina (de dezembro de 2007 a julho de 2009), ressaltou numas das suas reflexões que um dos fenômenos mais importantes nas transformações sociais atuais é o aumento significativo da desigualdade social. A inclusão está diretamente ligada aos processos de exclusão social. Há que compreender os tipos de exclusão para poder pensar em políticas inclusivas. Em detrimento do avanço tecnológico, a internet tem sido a melhor ferramenta de interação com o mundo. Mais do que nunca, garantir o acesso às tecnologias tornou-se, sobretudo, um ato de cidadania. António Filho, professor da Universidade de Pernambuco e consultor em área das TIC, elencou os três pilares fundamentais para que a inclusão digital aconteça: TIC, renda e educação. Para que este tripé funcione, todos devem estar conectados entre si. Para melhor compreensão, resume-se as ideias deste tipé: sem renda não é possível comprar computador ou pagar um plano de internet. Menos ainda podemos dizer que basta a existência de internet ou computador para ser incluído digitalmente, uma vez que sem o aprendizado do uso desses recursos, também não é possível estar “conectado”. Apesar de estarmos na “era da informação” o acesso a essas tecnologias ainda é restrito, pode-se afirmar que o acesso aos computadores conectados à internet beneficia apenas um determinado número de pessoas.

6. Ainda em relação aos resultados da pesquisa desenvolvida sobre o processo de inclusão digital, qual papel deve ser destinado à escola?

Um dos principais locais que propicia essa inclusão é a escola. O desafio é tornar essas tecnologias acessíveis a todos os cidadãos de forma a incluí-los socialmente e digitalmente.

Neste contexto, o professor Manuel Sarmento, da Universidade do Minho, em texto sobre “Infância, exclusão social e educação como utopia realizável”, questiona: Que pode a escola contra a exclusão social? Sendo a exclusão social fruto das desigualdades sociais presentes na sociedade capitalista, a escola não pode modificar essa realidade por completo. No entanto, pode ser um local de transformação social e institucional. A escola é um agente transformador e, por isso, a educação tem esse condão de garantia e de luta pelos direitos sociais.

Vale ressaltar que é na escola que se inicia esse processo de ensino-aprendizagem, por isso, este ambiente não pode ficar alheio a essas mudanças. A evolução deve fazer parte do ambiente escolar, fazendo necessário o uso das TIC dentro das escolas como promoção de uma educação inclusiva e digital.

A escola, é, sem dúvida alguma, como evidenciaram os pesquisadores Bento Silva e Maria da Graça Pereira, da Universidade do Minho, uma agência na luta pela inclusão digital pois é na escola que muitas crianças e jovens, sobretudo as que vivem em meios mais defavorecisos, contactam pela primeira vez com as Tecnologias de Informação e Comunicação. Neste ambiente é também fundamental que se aprenda a fazer uso consciente, crítico e criativo das tecnologias.  Trata-se, como releva Sofia Freire, professora da Universidade de Lisboa, de ampliar a visão acerca da inclusão, na perspetiva da transformação da escola e da sociedade.

7. Em síntese, como apresentar aos leitores desta entrevista a ideia de letramento digital mencionada anteriormente?

Devemos utilizar o “letramento digital” numa perspectiva mais ampla que “alfabetização digital". Isso significa entender que na ideia se refere não somente a aquisição dos dispositivos tecnológicos, como computadores, tablets e smartphones, e seu uso técnico-funcional, mas, significa aprender a fazer o uso das tecnologias com sentido transformador em relação ao modo de estar no mundo, de usar as TIC para aprender a viver juntos, em cooperação com os outros em todas as atividades humanas diante da constatação do mundo cada vez mais globalizado. 

8. Que referenciais bibliográficos a pesquisadora recomenda, do campo da inclusão digital, para quem deseja ampliar o conhecimento sobre a problemática abordada nesta entrevista?

Com certeza, há bastante pesquisas já realizadas sobre a temática, tão instigante e tão necessária, com vista a melhor compreensão sobre o tema sobre inclusão digital. As fontes que inspiraram esta entrevista foram:

Castells, Manuel. A Sociedade em Rede. A Era da Informação, Sociedade e Cultura - Volume I. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkianm 2002.

CETIC.br. Pesquisa sobre o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nas escolas brasileiras - TIC Educação 2016. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2017.  Disponível em: https://cetic.br/media/docs/publicacoes/2/TIC_EDU_2016_LivroEletronico.pdf

FILHO, Antonio Mendes da Silva. Os três pilares da inclusão digital. Revista Espaço Acadêmico. Ano III. nº 24. Maio. 2003. Disponível em: http://www.espacoacademico. com. br/024/24amsf.htm

Freire, Sofia. Um olhar sobre a inclusão. Revista de Educação. Vol. XVI, nº 1, 2008. p. 5-20, 2008. Disponível em: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/5299/1/Um olhar sobre a Inclusão.pdf

IWS. Internet World Stats: Usage and population statistics. Internet world stats, 2017 Disponível em http://www.internetworldstats.com.

ONU. The promotion, protection and enjoyment of human rights on the Internet. Resolução A/HRC/32/L.20, 27 junho de  2016. Disponível em http://ap.ohchr.org/documents/dpage_e.aspx?si=A/HRC/32/L.20.

SARMENTO, Manuel Jacinto. Infância, exclusão social e educação como utopia realizável. Educação Sociedade [online]. vol.23, n.78, p. 265-283, 2002. Disponível em;  https://doi.org/10.1590/S0101-73302002000200015.

Tedesco, Juan Carlos. Os fenômenos de segregação e exclusão social na sociedade do conhecimento. Cadernos de Pesquisa, 117, p. 13-28, 2002. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/cp/n117/15550.pdf

SILVA, Bento; Pereira, Maria Graça. Contributos da Escola para a Inclusão Digital. Innovación Educativa, nº 21, número temático “Educación Inclusiva”. Vigo: IEC - Instituto de Ciencias da Educación da Universidade de Santiago de Compostela, p. 217-227, 2011. Disponível em: https://revistas.usc.gal/index.php/ie/article/view/35

 

Agradecemos a entrevista, desejamos que o Brasil e, em especial Manaus supere rapidamente as lamentáveis marcas deixadas pela Covid-19, e que processos relacionados à inclusão digital no país passem a constituir programas e políticas de largo benefício social para a sua população.

 

Nota: Esta entrevista publicada no Portal de Jornalismo Potiguar Notícias integra o repertório de publicações do Projeto pluri-institucional intitulado “Diálogos sobre Capital Cultural e Práxis do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) - IV EDIÇÃO”. O Projeto, vinculado à Diretoria de Extensão (DIREX) do campus IFRN Natal Central e ao Programa de Pós-Graduação Acadêmica em Educação Profissional PPGEP do IFRN, articula práxis do campo epistêmico da Educação a partir de atividades de ensino, pesquisa, extensão, inovação e internacionalização com o campo da comunicação social a partir da dinâmica de produções jornalísticas por meio de diversos canais de diálogo social como: portal de jornal eletrônico, TV web, TV aberta, rádio e redes sociais. O objetivo do referido Projeto de Extensão do IFRN é socializar ideias e práxis colaboradoras da educação de qualidade social, de desenvolvimento humano e social por meio da veiculação de notícias em dispositivos de amplo alcance e difusão de comunicação social. Para mais informações sobre o Projeto contacte a coordenadora: andrezza.tavares@ifrn.edu.br.  

 

Fonte: Ms. Wylnara Braga (IFAM)