Andreia Braz

16/11/2021

 

Januário 

 

 

Ter um Pai! É ter na vida
Uma luz por entre escolhos;
É ter dois olhos no mundo
Que veem pelos nossos olhos!

Florbela Espanca

 

Poucos minutos antes de entrar no centro cirúrgico, Seu Januário disse a uma das filhas: “eu sei que não voltarei para casa, cuide de sua mãe”. Ele havia sofrido um acidente vascular cerebral e seria submetido a uma cirurgia para diminuir a pressão intracraniana. Apesar dos riscos da cirurgia, a família autorizou o procedimento. Aquela foi a última vez que Lena conversou com seu pai. Alguns dias depois, ela receberia uma das notícias mais devastadoras de sua vida. Não perdera apenas um pai, mas também um amigo e parceiro de conversas na calçada. Conversas que também aconteciam no terraço da casa arejada e espaçosa construída por ele e mais dois filhos que aprenderam o ofício do pai.

Um homem de porte altivo, elegante e educado. Assim foi seu Januário, nascido em Assu, em 1928, e criado na zona rural do município. O pai tinha propriedades e desde cedo o menino aprendeu a lida do campo. Plantava, cuidava dos bichos... E foi negociando gado que conheceu a esposa. A mãe dela era comerciante e o rapaz fazia negócios constantes na cidade. Não demorou muito para que passasse a observar a jovem que estava sempre varrendo a calçada quando ele chegava. A morena com traços indígenas arrebatou o coração de seu Januário. Pouco tempo depois, ele a pediu em namoro. 

O casal teve 11 filhos e viveu em Assu até a década de 1980, quando veio com a família para Natal. Os tempos de fartura ficaram para trás. Após a morte do pai dele e a divisão da herança, o patrimônio da família desfez-se em pouco tempo. Um primo que vivia em Natal prometeu-lhe arranjar um emprego. Naquele momento, seu Januário era funcionário de uma firma de construção civil e trabalhava de carteira assinada. Sempre preocupado com o futuro, optou por trabalhar registrado, mesmo ganhando menos, para garantir o abono dos filhos e contar tempo de contribuição para o INSS. Era isso que ele dizia quando lhe falavam das vantagens de trabalhar por conta própria. Dois filhos seguiram o mesmo caminho do pai, Godofredo e Edilson. O primeiro teve a carteira assinada como pedreiro aos 16 anos e foi elogiado pelo dono da firma quando este chamou seu Januário para lhe dar a notícia. Hoje mestre de obras, pai de dois filhos e avó de Benjamim, Gôdo, como é chamado em família, celebra a vida ao lado dos seus e faz questão de recordar o legado do pai e todos os ensinamentos de um homem que dedicou sua vida à família. Edilson também é casado e tem um filho. Os dois moram vizinho à antiga casa dos pais, onde hoje vivem duas irmãs, Lena e Edgênia, e Fernando, marido desta última. A visita dos outros irmãos, cunhados e sobrinhos é constante.

E por falar em legado, os ensinamentos de seu Januário foram muito além dos princípios ensinados aos filhos e da preocupação constante com o bem-estar de todos. Homem simples que não frequentou os bancos da faculdade, mas tinha a sabedoria aprendida com a própria experiência e também com a observação atenta das experiências alheias, deixou aos filhos ensinamentos valiosos que fizeram de todos eles pessoas honestas, trabalhadoras.

Homem sensível e de modos delicados, seu Januário era devotado à esposa. Quando precisava viajar para Assu, três horas de distância de Natal, voltava no mesmo dia, embora os filhos insistissem para que pernoitasse. A justificativa era sempre a mesma: “sua mãe não consegue dormir sem mim”. Essa foi uma das muitas peculiaridades de seu Januário contadas por Lena e Edgênia em uma tarde agradável, e emocionante, de conversa sobre a família. É comovente o orgulho com que falam do pai e dolorida a saudade daquele homem terno e alegre que partiu de repente. 

Todas as vezes em que falamos sobre ele, as meninas sempre dizem: “você ia gostar muito conhecer papai; ele também ia gostar muito do seu jeito porque adorava conversar”. Seu Januário faz parte daquela lista de pessoas que adoraríamos ter conhecido, mas que os designíos da vida não permitiram.

Ainda sobre as peculiaridades de seu Januário. Quando tinha algum compromisso e precisava se atrasar para o almoço ou jantar, toda a família o esperava para fazerem a refeição juntos. Dona Carminha não abria mão desse momento e sempre dizia: “vamos esperar seu pai”. Outro ritual cumprido em família era a missa aos domingos. Costume que, aliás, ainda é mantido por alguns filhos, especialmente Edgênia, Chagas, Edival e Guerra..

Já se passaram 15 anos desde aquele dia em que seu Januário fez o último pedido a sua filha Lena, pressentindo que não retornaria a casa e aos braços de sua amada Carmen. Os filhos cumpriram à risca o que ele pediu. Depois de alguns anos acamada, também em decorrência de um AVC, dona Carminha partiu cercada de afeto e cuidados. O acidente vascular cerebral foi ocasionado por um erro médico, ela foi submetida a um cateterismo sem ter sido informada de que precisava suspender duas medicações para hipertensão. Edgênia, a filha caçula, e Lena, cuidaram da mãe até o último momento, contando sempre com o apoio dos irmãos, cunhados(as), sobrinhos(as), especialmente de Fernando, esposo de Edgênia. 

Tive a oportunidade de morar vizinho à família por alguns anos e sou testemunha do amor e cuidado que dedicaram à mãe até o seu último dia de vida. Edgênia abriu mão de trabalhar e estudar para se dedicar integralmente aos cuidados com dona Carminha. Técnica em enfermagem, agora estuda para concursos e sonha fazer a faculdade de Enfermagem ou de Medicina. Lena cursou Serviço Social e também pretende atuar na área, seja por meio de um concurso público ou de um contrato de trabalho. É uma cozinheira de mão cheia (já degustei muitos de seus pratos), e também poderia abrir um buffet ou mesmo um restaurante. Seus bolos e doces são divinos. Com a pandemia, no entanto, alguns planos tiveram de ser adiados.

Essa conversa sobre seu Januário me fez lembrar Newton Navarro e a devoção que tinha a seu pai, Elpídio Soares Bilro, registrada em uma crônica. Assim como os filhos de seu Januário, Navarro também reconhece a dedicação do pai à família e enaltece seu caráter e a luta diária para garantir o sustento da família. Quando completou quatro anos da partida de Elpídio, o filho ilustre evocou sua presença com um texto pungente: “E lembrar-lhe a vida toda de sacrifício e luta. O exemplo dos dias de cansaço e mágoa. As horas lentas para que a família vivesse uma paz e as alegrias da casa voltassem sempre à sua chegada com a braçada dos presentes, a alegria no rosto envelhecido, a palavra de carinho, perfeita, real, sonora”. O texto está no livro Sete poemas quase inéditos & outras crônicas não selecionadas (Edufrn, 2013), organizado por Paulo de Tarso Correia de Melo e Gustavo Sobral. O posfácio traz um texto sublime sobre o ofício do cronista que amava as gentes, o sertão, o mar, e algumas peculiaridades de sua obra.

Assim como as filhas de seu Januário, Navarro sabia que, apesar da “certeza dos dias futuros sem o seu arrimo, sem o amparo de sua humildade, sem o exemplo de sua tenacidade e do seu sacrifício [...], mais forte que tudo, o amor continua a fazer com que a vida se perpetue em lembrança”.


Novembro, 2020