Andreia Braz

08/03/2022

 

Precisamos falar sobre depressão

Meu amigo João tem 55 anos e desde que foi atropelado, há quatro anos, luta contra a depressão e está em busca de um diagnóstico para um transtorno mental que certamente é o mesmo que acometera sua mãe, o transtorno afetivo bipolar. Apesar de estar sendo acompanhado por um psiquiatra e tomando regularmente sua medicação, ele está enfrentando um grande sofrimento mental e espera viver dias mais tranquilos. A música e a atividade física também fazem parte de sua rotina e têm ajudado a diminuir um pouco a ansiedade que por vezes lhe tira o sono. Uma de suas queixas é o preconceito por parte de alguns amigos, que muitas vezes desacreditam de seu sofrimento e acham que ele “não tem motivo para ter depressão porque tem uma família, um carro, emprego público”... Como se esses fatores pudessem curá-lo milagrosamente ou mesmo evitar que alguém fosse acometido por tal doença. A depressão sempre foi uma doença presente em sua família. A avó materna e a mãe não suportaram as dores psíquicas e desistiram de viver. Ele não chegou a conhecer a avó.

Minha amiga Laura, 35 anos, também faz parte do grupo de pessoas que convivem com a depressão e enfrentam a doença com o auxílio de um psicólogo e um psiquiatra. Mesmo contando com o apoio da família e de alguns amigos, ela se sente sozinha e muitas vezes não sabe como lidar com o sentimento constante de tristeza e a falta de vontade de fazer tarefas diárias, por exemplo. Falta motivação até mesmo para coisas que ela gosta, como ler, assistir filmes, sair com os amigos. Ficou afastada do trabalho por um período, mas já retornou e acredita que sua atividade laboral é terapêutica em alguns sentidos. 

Outro dia recebi uma ligação de Laura e passamos mais de uma hora conversando sobre seu atual estado de saúde. Confesso que me senti impotente perante o relato de suas dores e angústias. Chorei muito após desligar o telefone. Meu desejo era poder abraçá-la e, de algum modo, diminuir aquele seu sofrimento. Ela me disse que muitas vezes não sente vontade de fazer nada e está vivendo por viver, fazendo as coisas de forma mecânica. Até mesmo a leitura, uma de suas paixões, anda um pouco de lado porque falta concentração para seguir adiante. O mesmo acontece com os filmes. Disse que muitas vezes preferiria não acordar para não sentir mais as dores que sente. Ontem ela me telefonou novamente e está um pouco mais confiante. O psiquiatra trocou a medicação e ela retornou à terapia, que havia abandonado há alguns meses. Ele disse que em uma semana o medicamento começa a fazer efeito. Assim que ela estiver melhor, vamos tomar um café em minha casa ou mesmo fazer um passeio na praia com outra amiga nossa que está sempre presente nesses momentos. Dias melhores virão.

Após a última conversa que tive com Laura, fiquei pensando em várias questões relacionadas aos transtornos mentais, sobretudo o estigma que envolve tais doenças. Por isso é que muitas vezes algumas pessoas preferem esconder seu real estado de saúde e não compartilham com amigos e familiares suas dores, seus receios. Elas têm medo de sofrer discriminação, de não serem compreendidas ou mesmo serem taxadas de “loucas”. Isso mesmo, essa é uma queixa frequente de uma amiga que sofre de transtorno bipolar e muitas vezes tem medo de falar certas coisas até mesmo para a sua psiquiatra. Ela sempre diz temer que ela aumente a dosagem dos remédios ou receite uma nova medicação. Sim, porque tomar medicação controlada também é fator de discriminação por parte de quem não compreende a importância dos remédios para o tratamento de certos transtornos mentais. Esse tratamento, associado ao acompanhamento psicológico e outros fatores como atividade física, contato com a natureza, lazer, contribui significativamente para a qualidade de vida do paciente.

E por falar em questões ligadas aos transtornos mentais, o risco de suicídio é uma preocupação dos profissionais de saúde. Sim, porque grande parte dos casos de suicídio estão associados a transtornos mentais. De acordo com o site do Ministério da Saúde, no Brasil são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos e mais de 1 milhão no mundo. “Cerca de 96,8% dos casos de suicídio estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e do abuso de substâncias”, diz o texto alusivo ao Setembro Amarelo e ao Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. 

O trabalho do Centro de Valorização da Vida (CVV) e o Setembro Amarelo (mês de combate ao suicídio) são ações louváveis que merecem nosso reconhecimento, mas também nos fazem lembrar que o tema do suicídio precisa deixar de ser um tabu. Precisamos conversar abertamente sobre o tema e buscar, de todas as formas, ajudar as pessoas com ideação suicida, a encontrar o tratamento adequado para o seu caso, mas também e principalmente, acolhimento, escuta e afeto. Não é só de remédio e terapia que esses pacientes necessitam. É muito mais complexo do que imaginamos compreender essas questões e tentar, de algum modo, dar um suporte a quem está fragilizado emocionalmente. Isso inclui mudanças na área da saúde, da educação etc. Não podemos esquecer que isso envolve, principalmente, uma rede de saúde pública e serviços acessíveis a toda população, o que não é uma realidade para a maioria dos brasileiros, embora se reconheça a luta constante dos profissionais de saúde para que esse acesso seja o mais universal possível.

Inúmeros fatores podem impedir a detecção precoce e a prevenção do suicídio. Os mais importantes deles são o estigma e o tabu relacionados ao assunto. Por razões religiosas, morais e culturais, durante séculos o suicídio foi considerado um pecado. Por isso, ainda temos medo e vergonha de falar abertamente sobre esse problema de saúde pública que acomete pessoas de todas as idades, mas principalmente jovens.

O contexto da pandemia tornou ainda mais delicada a situação de quem enfrenta algum problema de ordem psíquica. Pelo que tenho lido durante esse período, e mesmo através de conversas informais com amigos e familiares, percebo que o número de pessoas com algum tipo de transtorno mental tem crescido vertiginosamente durante a pandemia. Síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada, depressão, são alguns dos nomes que mais tenho lido/escutado nos últimos tempos.

O próprio isolamento social, que implicou no afastamento do trabalho/estudo e consequentemente de uma rotina já estabelecida, mudou completamente a vida de milhares de pessoas, e isso teve uma grande repercussão em nossa saúde mental. Outra questão frequentemente abordada por profissionais de saúde nesse período é o consumo abusivo de álcool, por exemplo. O consumo de alimentos industrializados e a sua relação com algumas doenças/obesidade tem sido outro ponto discutido por profissionais de saúde. E tudo isso tem implicações na nossa saúde física e mental. O mais recomendável, quando possível, é tentar manter uma rotina que inclua atividade física, alimentação saudável, além de atividades que contribuam para o nosso bem-estar físico e psicológico. E não podemos esquecer, claro, do afeto e do acolhimento, tão necessários nos momentos de angústia e sofrimento mental.