Kalina Paiva

17/11/2023 09h53

 

Tropecei e caí!

 

Meu maior desafio é escrever esse texto, evitando que dele escorra sangue, já que vou falar sobre ser mulher no Brasil. E quando o assunto é violência doméstica, as classes sociais se fundem em classe social mulher.

Nas duas últimas semanas, o Brasil vem acompanhando o caso da ex-modelo, empresária e apresentadora Ana Hickmann. Ela cansou de chegar ao trabalho dizer: “Tropecei e caí!”, para justificar hematomas percebidos pelos colegas. Assim, tomou a atitude de prestar queixa contra o agressor, o próprio marido. Ontem (16), ao apresentar o programa, era possível vermos os hematomas, marcas da violência doméstica que sofreu.

Chega a ser “pedagógica” a sequência de vídeo que viralizou nas redes sobre a rotina da ex-modelo. Em um deles o agressor a desmerece, tentando destruir sua autoestima. Em outro, ignora a esposa falando com ele e, quando responde, não dialoga, esbraveja. Por fim, os hematomas que estão visíveis no Programa de TV, transmitido por uma emissora que decidiu calar a respeito. (Alguém se reconhece aqui ou lembra de alguém em situação parecida?)

Sinceramente, desejo que essa mulher não seja mais um número no Anuário de Segurança Pública que, em 2022, registrou um aumento de 6,1%, nos casos de feminicídio em relação a 2021. Das 1.437 vítimas, 17 delas tiveram os filhos como testemunha. Em 2023, mesmo com políticas afirmativas de combate à violência, os casos continuam – herança de quatro anos escutando discursos de ódio.

E se você não entendeu a gravidade por trás desses números, já que a frieza do número retira a matéria mais subjetiva de quem acompanha os casos de perto, vou relembrar que, por trás de cada percentual, existem pessoas que se foram, deixando os filhos. Era aquela vizinha do seu condomínio, alvejada pelo companheiro que não aceitava a separação, em Nova Parnamirim; era aquela que estava no trabalho, quando um homem adentrou a loja e a executou, em Parnamirim; era preta da comunidade que foi morta pelo ex-companheiro, enterrando-a de cabeça para baixo no quintal de uma casa, na Zona Norte de Natal; era aquela juíza morta pelo ex-companheiro na frente das filhas, véspera de natal na capital carioca.

Assusta-me quando vejo Instituições formadoras, religiosas ou não, que dão legalidade aos discursos de ódio, naturalizando-os. O mesmo vale para influenciadores digitais que desempenham um papel na tomada de decisão da grande massa.

Em uma sociedade descontente com a crise do capital, os discursos de ódio se materializam. Para combater isso, é necessário o investimento pesado em uma educação libertadora, tendo como aliadas família, igreja, escolas, ONGs, entre outras. Sem isso, estaremos fadados à barbárie.

*ESTE CONTEÚDO É INDEPENDENTE E A RESPONSABILIDADE É DO SEU AUTOR (A).


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