Kalina Paiva

24/11/2023 08h36

 

Correspondência violada

 

Se as quintas-feiras são dias de tbt - acrônimo de Throwback Thursday para se referir ao resgate de lembranças em fotos - então vou reservar à sexta os episódios corriqueiros relembrados entre um café ou uma cerveja no bate-papo com os amigos.

O ano era 1998, eu tinha me tornado mãe e, nessa época, não tínhamos whatsApp. Havia outras formas de comunicação, obviamente. Acontece que a pessoa com a qual eu me correspondia na época estava em um lugar afastado, sem rádio e sem notícias da terra civilizada, em Paraupebas, no estado do Pará, especificamente na região de Carajás. Se você procurar no mapa, vai entender do que estou falando. É lá onde Judas perdeu as botas com acesso difícil e longe da cidade mais próxima. Tudo era muito simples.

Assim, eu enviava cartas, dando notícias a ele a respeito do sobrinho que havia nascido. Essas coisas da vida cotidiana que a gente partilha com quem a gente tem afeto. O conteúdo das cartas não tinha nada demais, ainda assim era um conteúdo privado.

Acontece que o chefe dele costumava abrir as correspondências dos funcionários, decidindo acompanhar todas as cartas que enviávamos para ele, tio dos meus filhos, que ama a literatura e também é escritor assim como eu.

Um belo dia, ele me ligou, pedindo para eu ter cuidado e não tecer críticas ao chefe dele nas cartas (às vezes, ele ligava e partilhava os infortúnios do trabalho conosco), pois o sujeito violava as correspondências das pessoas. Tive um insight, enquanto interagia ao telefone: “É mesmo? Ele costuma fazer isso?”

Fui à papelaria mais próxima, procurei um envelope colorido, uma caneta de tinta metálica, dessas que se usa para escrever em convites de aniversário de 15 anos ou casamento, e escrevi a carta toda na parte externa, no envelope. Nada coloquei no interior da correspondência.

A carta, na verdade, era uma fábula, intitulada: O grilo e as pessoas. Daí que me permiti brincar com a situação, usando a frase repetidas vezes em trocadilhos: “O grilo vive para grilar a vida das pessoas.”

Quando a carta chegou lá, o destinatário me disse que o seu chefe não abriu a correspondência. Virou gozação, obviamente. Entregou-a meio desconfiado ao real destinatário sem nada comentar. Depois daquele dia, não lembro de Tullio relatar que alguma correspondência foi aberta.

Sobre mim:

Kalina Paiva, professora, pesquisadora, escritora e produtora cultural.

Natural de Natal-RN, sou professora do IFRN, pesquisadora em Literatura Comparada e mídias e escritora de poesia e contos. Líder do Núcleo de Pesquisa em Ensino, Linguagens, Literatura e Mídias (NUPELLM) do IFRN e membro do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-rio-grandenses. Membro da União Brasileira dos Escritores - Seção Rio Grande do Norte (UBE/RN), da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN (SPVA), do Mulherio das Letras Nísia Floresta, e da Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP); Coordenadora de Letras e Literatura do Movimenta Mulheres RN.

*ESTE CONTEÚDO É INDEPENDENTE E A RESPONSABILIDADE É DO SEU AUTOR (A).

 


*ESTE CONTEÚDO É INDEPENDENTE E A RESPONSABILIDADE É DO SEU AUTOR (A).