Kalina Paiva

Natural de Natal/RN, é professora e pesquisadora do IFRN, autora de poesia e contos de terror.

08/12/2023 06h23

 

“Parece um homem escrevendo”

 

O título desse texto traz o comentário feito por um crítico à obra de Emilly Brontë, O morro dos ventos uivantes. Aceitarmos essa fala como um elogio significa concordarmos que há uma forma específica de escrever, que é masculina e, por conseguinte, socialmente aceita. A literatura não tem gênero, embora seus autores sim. O uivo de Emilly Brontë surpreendeu (e permanece assim até hoje) pela capacidade de narrar uma trágica história de amor com uma crueza digna da realidade vivida.

Recentemente, a Fuvest anunciou que trará, para as edições de seus vestibulares nos anos compreendidos entre 2026 e 2028, leituras obrigatórias de obras escritas por mulheres. A medida inovadora incomodou o Estadão que trouxe em seu editorial, intitulado “Vestibular para militantes”, uma argumentação pífia e machista camuflada de “defesa de pluralismo de ideias”. Nós, escritoras, sentimos o cheiro dos chacais de longe.

Quer uma ideia mais genial do que esta: dedicar três anos à produção de nossas autoras brasileiras? Levar estudantes a conhecer e refletir sobre a literatura feminina é uma forma de valorizar a nossa cultura e nossa educação.

Quando lerem “Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens”, publicado em 1832, e entenderem que a educação para as mulheres no Brasil só começou de fato em 1879, mesmo com a lei sancionada em 15 de outubro de 1827, vão descobrir o que, juridicamente, se fazia com as mulheres. As que conseguiam estudar, só podiam fazer isso com autorização dos pais ou do marido – o que raramente acontecia. Além disso, as que entram nesse contingente são brancas e de classe abastada. A educação pública e gratuita só acontecerá bem depois. Entendeu a conta? Entendeu o motivo de termos poucas escritoras nesse período?

Por que termos mulheres numa lista de um vestibular incomoda tanto? Pense comigo. Nísia Floresta, escritora que não se intimidou ao cobrar igualdade na formação de homens e mulheres, na obra mencionada há pouco, contestou o mito da superioridade masculina e colocou em xeque a visão deturpada sobre a capacidade intelectual e liderança feminina. Hoje, estamos colhendo frutos dessa luta. Bastou termos acesso à educação.

As candidatas e principalmente os candidatos ao vestibular da Fuvest precisam conhecer, por exemplo, que Maria Firmina dos Reis escreveu um dos primeiros romances abolicionistas, quando ainda havia escravidão no Brasil. Estou citando uma escritora negra, maranhense, que, nessa época, produziu Úrsula (1859), trabalho que ficou esquecido até 1962, quase 100 anos depois, quando foi resgatado pelo historiador Horácio de Almeida num sebo.

Sabendo que a ficção está carregada de representação, todos que prestarem o exame terão que mergulhar no universo do século XIX, do ponto de vista de quem conviveu com a negritude escravizada e não de quem conviveu com a elite. A obra é inovadora para a época não exatamente por trazer em seu enredo um triângulo amoroso – muito comum nas obras desse período - mas por permitir que personagens negros narrem as suas dores. É o subalterno falando e, se isso está incomodando agora, imaginem na época, daí o silêncio centenário sobre a obra.

A literatura escrita por mulheres é ideológica como toda e qualquer obra. Até os parnasianos, quando escolheram escrever sobre amenidades, cortando das palavras sua capacidade de dizer sobre as problemáticas sociais, estavam adotando um procedimento ideológico. Silêncio é linguagem. Silenciamento, não.

Se a mídia bate em nossas narrativas para ficarmos acuadas, temos a nossa própria forma de discar 190 na literatura. Chegamos à lista da Fuvest em três edições únicas e históricas. Passados esses três anos, seguiremos em luta porque o machismo não dorme. Aliás, sequer cochila, embora não assine os editoriais que produz. Quando se é mulher, a liberdade é uma luta constante. Estamos na trincheira e não recuaremos.

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Sobre mim

Kalina Paiva, professora, pesquisadora, escritora e produtora cultural.

Natural de Natal-RN, sou professora do IFRN, pesquisadora em Literatura Comparada e mídias e escritora de poesia e contos. Líder do Núcleo de Pesquisa em Ensino, Linguagens, Literatura e Mídias (NUPELLM) do IFRN e membro do Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-rio-grandenses. Membro da União Brasileira dos Escritores - Seção Rio Grande do Norte (UBE/RN), da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN (SPVA), do Mulherio das Letras Nísia Floresta, e da Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP); Coordenadora de Letras e Literatura do Movimenta Mulheres RN. Escritora de poesia e contos.

 
*ESTE CONTEÚDO É INDEPENDENTE E A RESPONSABILIDADE É DO SEU AUTOR (A).

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