Mônica Cavalcante

04/06/2024 10h32

CONEXÕES ENTRE BRASIL, ZULULÂNDIA E OS ESTADOS UNIDOS

 

Você já ouviu falar da Zululândia? Não, não é um lugar fictício de um filme de aventura, mas uma região real na África do Sul, cheia de histórias e tradições fascinantes. Agora, você deve estar se perguntando: "O que a Zululândia tem a ver com a nossa vida aqui no Brasil e com os acontecimentos recentes nos Estados Unidos?" Bem, mais do que você imagina!

Vamos começar com uma pequena viagem no tempo e no espaço. Na década de 1940, um antropólogo britânico chamado Max Gluckman decidiu estudar a vida social na Zululândia. Ele queria entender como as pessoas lidavam com conflitos, rituais e mudanças sociais. Gluckman observou que, mesmo em meio a conflitos, as comunidades encontravam maneiras de resolver suas diferenças e manter a coesão social. Interessante, não é?

Agora, vamos trazer essa história para o nosso quintal. Pense nas comunidades indígenas e quilombolas do Brasil. Assim como na Zululândia, essas comunidades enfrentam conflitos e desafios, mas também têm suas próprias maneiras de resolver problemas e manter a harmonia. Por exemplo, as disputas de terra entre fazendeiros e comunidades indígenas são um tema recorrente. Assim como os zulus, essas comunidades utilizam seus próprios mecanismos tradicionais para lidar com esses conflitos, muitas vezes recorrendo a conselhos de anciãos e líderes comunitários.

E os rituais? Ah, os rituais! Na Zululândia, Gluckman observou cerimônias de casamento, funerais e rituais de iniciação que eram momentos de grande importância social. No Brasil, temos o Carnaval, as festas juninas, as celebrações religiosas e tantas outras manifestações culturais que funcionam como verdadeiros rituais sociais. Esses eventos não são apenas festas; são momentos em que reafirmamos nossa identidade cultural e nossas relações sociais.

Mas e a modernidade? Como equilibrar tradição e modernidade? Na Zululândia, Gluckman viu como as práticas tradicionais eram adaptadas às novas realidades trazidas pela colonização e pela modernização. No Brasil, enfrentamos desafios semelhantes. Pense nas comunidades rurais que precisam se adaptar às novas tecnologias agrícolas ou nas favelas urbanas que buscam equilibrar tradições culturais com as demandas da vida moderna.

E o que dizer dos conflitos sociais? Gluckman acreditava que os conflitos, em vez de desestabilizar a sociedade, podiam reforçar normas e valores sociais. No Brasil, vemos isso claramente em movimentos sociais como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e os protestos por direitos indígenas e quilombolas. Esses movimentos, apesar de desafiadores, promovem mudanças e reforçam a importância dos direitos humanos e da justiça social.

Agora, vamos atravessar o Atlântico e chegar aos Estados Unidos. Recentemente, o ex-presidente Donald Trump se viu envolvido em uma série de processos criminais. Esses processos são um reflexo dos conflitos políticos e sociais que permeiam a sociedade americana. Vamos detalhar os quatro processos criminais contra Trump:

 

1. SUBORNO EM NOVA YORK: Trump foi acusado de falsificar registros financeiros para ocultar um pagamento de US$ 130 mil feito à ex-atriz pornô Stormy Daniels. Esse pagamento foi registrado como honorários advocatícios, o que foi considerado fraude. O julgamento começou em abril de 2023 e terminou em maio do mesmo ano, com Trump sendo considerado culpado.

2. MOTIM NO CAPITÓLIO E ELEIÇÕES DE 2020:  Investiga se Trump conspirou para reverter sua derrota nas eleições de 2020, pressionando autoridades e espalhando mentiras sobre fraude eleitoral. Ele foi acusado de conspiração para fraudar os EUA e obstrução de procedimento oficial. O julgamento foi adiado indefinidamente enquanto um recurso é analisado pela Suprema Corte.

3. ELEIÇÕES DE 2020 NA GEÓRGIA:  Trump e outros réus são acusados de conspirar para reverter sua derrota na Geórgia. A investigação inclui acusações de racketeering (crime organizado) e violação da Lei Rico. Os promotores querem que o julgamento comece em agosto de 2023, mas a data ainda não foi definida.

4. DOCUMENTOS CONFIDENCIAIS: Investiga se Trump manipulou indevidamente documentos confidenciais, levando-os da Casa Branca para sua residência em Mar-a-Lago, e se obstruiu as tentativas do FBI de recuperar os arquivos. A data do julgamento foi cancelada e ainda não foi remarcada.

Assim como na Zululândia e no Brasil, os Estados Unidos também têm seus próprios mecanismos para lidar com conflitos. Os processos judiciais e as eleições são momentos cruciais em que a sociedade americana reafirma seus valores democráticos e sua identidade política. As acusações contra Trump e os julgamentos subsequentes são formas de tentar manter a integridade do sistema político e jurídico, muito parecido com os conselhos de anciãos na Zululândia ou as assembleias comunitárias nas comunidades indígenas brasileiras.

A tensão entre tradição e modernidade também está presente nos Estados Unidos. As acusações contra Trump refletem desafios modernos enfrentados por uma sociedade que valoriza tanto a tradição democrática quanto a necessidade de adaptação às novas realidades políticas e tecnológicas.

Então, da próxima vez que você ouvir falar da Zululândia, lembre-se de que, apesar da distância geográfica e cultural, há muito em comum entre as histórias de lá, do Brasil e dos Estados Unidos. As lições de Gluckman sobre conflitos, rituais e a tensão entre tradição e modernidade são extremamente relevantes para entender nossa própria sociedade.

Afinal, a Zululândia pode estar mais perto do que você imagina. Ela está nas comunidades que lutam por seus direitos, nas festas que celebram nossa cultura e nas maneiras criativas que encontramos para resolver nossos problemas. E, quem sabe, ao entender um pouco mais sobre a Zululândia, possamos também entender melhor a nós mesmos.

E você, já pensou onde fica a sua Zululândia?

Sobre a autora

Mônica Cavalcante (A autora é mestranda em Antropologia Social, especialista em Pedagogia Institucional e graduada em Letras com habilitação em Línguas Portuguesa e Inglesa e suas respectivas literaturas. Sua atuação se destaca na defesa e difusão da ciência, na ampliação do apoio científico para políticas públicas e no desenvolvimento de tecnologias sociais e assistivas. Comprometida com a valorização e apoio a populações historicamente sub-representadas, é engajada social e politicamente, participando de movimentos e conselhos que promovem a igualdade de gênero, o combate à violência e o empoderamento feminino.)

 


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