Kalina Paiva

Professora, Escritora e Pesquisadora da área literária.

05/07/2024 08h57
 
Nossos bichos subterrâneos
 
No universo conectado das redes sociais, o amor, a compreensão, a empatia junto com todas as virtudes desfilam como se o mundo real lhes desse passagem vitalícia. Gosto da arte porque ela sempre apresenta outros ângulos, contrapontos e principalmente a contramão das estradas da vida, convidando-nos a lidar com sentimentos do subterrâneo.
 
É mais ou menos essa a experiência proporcionada pelos estúdios da Pixar e da Walt Disney Picture em Divertidamente II. No filme, encontramos Riley entrando e atravessando a adolescência, fase pela qual todos passamos até amadurecermos – se bem que conheço vários adolescentes incorrigíveis já na casa do 50.
 
Quando essa fase da vida chega para Riley, a metáfora cinematográfica usada na animação é a da demolição. Entra em cena um grupo de trabalhadores que se instala na sala de controle, o cérebro da mocinha. Aquele espaço que, antes, estava com cada coisa em seu devido lugar, de repente vira uma bagunça. É um Deus-nos-acuda, um Tudo em todo lugar ao mesmo tempo dentro da cabeça da adolescente, colapsando seus vários eus: Eu-ansiedade, eu-alegria, eu-raiva, eu-tédio, eu-tristeza, eu-inveja, eu-vergonha... Além de ser capaz de dar nó na cabeça de Fernando Pessoa e seus heterônimos, a cena é perfeita para simbolizar a explosão dos hormônios com todas as transformações que vem junto, sobretudo as mudanças de humor.
 
A partir daí, suas antigas emoções Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Raiva (Lewis Black), Medo (Tony Hale) e Nojinho (Liza Lapira) dividirão espaço com os novos inquilinos: Ansiedade (Maya Hawke). Inveja (Ayo Edebiri), Tédio (Adèle Exarchopoulos), Vergonha (Paul Walter Hauser) e, finalmente, a Nostalgia (June Squibb). Assim, conheceremos o lado adolescente da força, já que a parte mais ao sul do inconsciente será visitada.
 
Aquela garotinha fofa terá a coragem de fazer coisas das quais se envergonhará, pois está aprendendo e, infelizmente, não há aprendizados sem erros, panes, colapsos e furacões internos. Visando ser aceita em um time de hóquei com veteranas experientes, vai negar seu gosto musical (infantil) para as jogadoras adolescentes, preterindo suas verdadeiras amigas; berrará contra os pais; entrará em choque consigo mesma, entre outras demonstrações que dão a tônica do filme.
 
Ela faz tudo isso não por ser má, mas porque algumas situações podem nos levar a comportamentos e escolhas inusitadas, gerando estranhamento até nas pessoas que nos conhecem mais de perto. Pelo menos é o que diz Elliot Aronson, uma referência na psicologia social, que discorre sobre isso em O animal social, obra que ele escreveu para seus alunos e alunas da graduação em Psicologia, reunindo as suas ideias, costuradas às teorias psicológicas, já partilhadas em sala de aula e palestras.
 
Imagem / Reprodução / Freepik
 
No livro, Aronson mostra vários exemplos de pessoas comuns, capazes de fazerem escolhas duvidosas e tomarem atitudes reprováveis coletivamente. O teórico mostra como se forma um consenso, um preconceito, acrescentando que uma decisão ruim – como uma escolha política que prejudica coletivamente um país – pode ser revista, já que somos seres da mudança. É claro que, com isso, ele não busca justificar erros e sim analisar o comportamento humano em situações coletivas sob determinadas circunstâncias.
 
Levando isso para a realidade vivenciada pela protagonista em Divertidamente II, constatamos que a arte, esse poderoso instrumento que mostra a nossa humanidade nua e crua, não joga para debaixo do tapete, escondendo as nossas emoções mais controversas, ao contrário, lança luz sobre os bichos existentes em nosso subterrâneo. 
 
Conhecer a si mesmo é uma das frases mais famosas de Sócrates, porém vivê-la na realidade da existência implica admitirmos nossas falhas, nosso apego aos defeitinhos (para outra pessoa, pode ser gigante) que colocamos no altar do ego. Acrescento à fala do filósofo grego um adendo: o autoconhecimento é muito bom, pois sinaliza caminhos para resoluções, mas saber o que vamos fazer com isso é outro passo que, muitas vezes, precisa de uma ajuda profissional, a de um(a) psicólogo(a).
 
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Sobre mim
 
Kalina Paiva, professora do IFRN - Campus Natal-Central, é natural de Natal/RN. É autora de poesia e contos de terror. Gatilhos Poéticos (2022), Cantigas de amor e guerra (2023) são seus livros mais recentes. Membro da União Brasileira dos Escritores - Seção Rio Grande do Norte (UBE/RN), da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN (SPVA), do Mulherio das Letras Nísia Floresta, e da Associação Literária e Artística de Mulheres Potiguares (ALAMP); Coordenadora de Letras e Literatura do Movimenta Mulheres RN. É pesquisadora na área de Literatura, História e memória, e mídias. Instagram: @kalinissima
 
 

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