Théo Alves

09/08/2020
 
“Eu só estava vendo chover”
 
 
 
— Vó, vim ajudar a debulhar.
— Já acabamos. Mas vamos fazer chocolate. Onde é que você se meteu? O tempo inteiro que durou a tormenta ficamos procurando você.
— Eu estava no quintal de lá.
— E fazendo o quê? Rezando?
— Não, vó, eu só estava vendo chover.
 
                                                Juan Rulfo, em Pedro Páramo
 
O diálogo acima consta do livro “Pedro Páramo”, do escritor Mexicano Juan Rulfo, que escreveu pouco, mesmo tendo vivido quase 70 anos. Há pouco mais deixado por Rulfo além de seu “Pedro Páramo”, um romance curto em que narradores trocam de lugar ao longo do texto permeado por ausências e pela presença constante de quem já não estava mais lá. Esse é um livro tão brilhante que nos permite entender por que o autor mexicano escreveu tão esparsamente: já era o suficiente para ocupar o lugar de um dos mais importantes escritores da América Latina ou mesmo de todo o mundo.
 
Ao falarem sobre ausências e vazios deixados por seus personagens e pelas cidades que visitam ou onde estiveram, seus narradores acabam por falar sobretudo de presença. Eles o fazem de maneira tão concisa e honesta que um leitor menos atento pode perder a profundidade de declarações aparentemente simples como esta: “Não, vó, eu só estava vendo chover”.
 
O que pode haver de mais profundo e pleno que “só” estar vendo chover? 
 
Em tempos absurdos como os nossos, em que corremos desesperadamente atrás do futuro que jamais virá ou rodamos inutilmente atrás do rabo do passado, como um cão que ainda não se apercebeu de seu cansaço, o que pode ser mais intenso que fazer exclusivamente algo simples como ver a chuva?
 
Nós nutrimos a ilusão de que o sujeito multitarefa, cercado de computadores, celulares, papeis, afazeres domésticos, compromissos estéticos, exercícios físicos e alimentação balanceada é a única possibilidade de sermos plenamente felizes, realizados de tudo, capazes de comprimir meia vida em 24 horas, sete dias por semana. 
 
Empurramos nossa produtividade no trabalho goela acima ou abaixo, nos obrigamos antes que nossos chefes nos obriguem – patrões de nós mesmos que atendemos cegamente por nomes esdrúxulos como “autônomos”, “proativos” ou “empreendedores”, sugados até a alma do osso por quem não se importa em absolutamente nada se ainda somos ou não humanos, se nos tornamos as máquinas que prometemos ser ou se entregamos o sangue que juramos, capazes de abrir mão de nossas próprias vidas para sobreviver.
Na maior parte do tempo, não estamos onde estamos.
 
Parecemos incapazes de lavar a louça do jantar sem fingir estarmos vivendo outra coisa. É uma tarefa impossível almoçar, sozinho ou acompanhado, sem celulares vibrando o tempo inteiro, fingindo a urgência de que o mundo espera que o salvemos, quando o mundo nem sequer sabe que existimos e não dá a mínima para os problemas do trabalho. Computadores, telefones, música, vozes que não nos permitem experimentar a sensação de apenas estar, de estar apenas e profundamente fazendo algo simples, como caminhar pela rua, ler um livro ou ouvir uma canção sem pensar na canção que tocará a seguir.
 
É terrível pensar que só habitamos o passado e o futuro, incapazes de viver as coisas no momento em que são. A fragilidade de quem vai a um show e gasta todo o tempo e a atenção em gravá-lo pelo celular (insuportável de ouvir e ver depois, dada a péssima qualidade do registro). A insaciedade de quem fotografa a comida e vai publicá-la antes de saborear profundamente a alegria de um prato bem cuidado. Nossa necessidade de empilharmos conversas pelo Whatsapp na mínima meia hora em que deveríamos ficar sós, aproveitando a raridade de nossa própria companhia, mas que não conseguimos. Esses são apenas alguns dos atestados de nossa incapacidade de apenas estarmos vendo chover.
 
Há um haicai do poeta japonês Kobayashi Issa em que ele escreve:
 
“Apenas estando aqui,
estou aqui,
e a neve cai.”
 
Durante muito tempo este poema foi para mim uma espécie de mantra em que eu buscava compreender a necessidade de apenas estar, de ver a neve dos momentos que vivia plenamente: sem a ansiedade do futuro, sem a angústia do passado. Pleno e tomado intensamente pelo presente, o que inclui não pensar nele.