Théo Alves

23/08/2020
 
Os que ainda estamos por perder
 
 
Neste momento em que várias partes diferentes do país vivem um bizarro jogo de idas e voltas a respeito do confinamento, que talvez nunca tenha existido de fato por aqui, tenho me lembrado com frequência de dois personagens da literatura que me são muito queridos.
 
Giovani Drogo, um soldado que se prepara para a batalha em um forte onde a guerra nunca chega, do escritor italiano Dino Buzzatti; e Lista – também chamada de “Não-É-Augustine” – uma judia sobrevivente do pequeno vilarejo de Trachimbrod, que depois de muitos anos ainda não sabe que a II Grande Guerra acabou e espera sozinha e pacientemente em sua casa no meio do nada, ou quase nada, senão por suas caixas de lembranças.
 
Tenho me lembrado destes personagens porque, neste momento, sinto que estou ilhado em meu forte do confinamento ou em minha casinha onde coleciono até poeira próxima ao lago de Trachimbrod. Ao ver as atividades retomadas em todo o país, desde a abertura do comércio até a possibilidade de aulas presenciais para crianças e mesmo os jogos de futebol, a ideia de uma ilha se torna mais clara enquanto os sentimentos, mais confusos.
 
Como retomar a vida sem uma possibilidade clara de cura ou uma vacina contra um vírus sobre o qual ainda não sabemos o suficiente? Como é possível falar em normalidade quando temos cerca de mil mortos todos os dias no país, ainda que falem em queda de contaminações? Durante esta pandemia, nenhum lugar do planeta viu o número de mortos se manter em nível tão alto por tanto tempo. Então como nos permitimos o absurdo de tomar como normal ou inevitável essa absurda perda da vida diariamente?
 
À esta altura, temos quase 115 mil mortos por Covid 19. Para se ter uma noção mais clara do que isso significa, as vítimas fatais do Corona vírus formariam a quarta maior cidade do Rio Grande do Norte, numa multidão feita de filhos, pais, amigos e amores de muitas famílias. No entanto, ouvimos o tempo inteiro discursos como o do Presidente, que diz “temos de tocar a vida”, quando na verdade só temos tocado a morte todo o tempo neste jogo infinito de troca de responsabilidades. Ou melhor, da falta delas.
 
É claro que estamos cansados deste confinamento. Já nos avizinhamos do sexto mês presos do lado de dentro de nossas casas, apartados das pessoas que nos são queridas: filhos, pais, amigos, amores. Obviamente, todos sentimos falta de nossa liberdade habitual, desde visitar pessoas até poder sentar-se em paz sozinho para tomar um café e ler um livro em uma padaria. Em maior ou menor grau, o mundo lá fora nos falta aqui dentro e o isolamento é muito menos uma escolha que uma obrigação.
 
Temo que este movimento de reabertura institucionalizada possa nos trazer muitas outras perdas e precipitar a tal segunda onda de contágio antes mesmo de termos superado a primeira. Temo que nosso individualismo e superficialidade possam se sobrepor ao cuidado com os nossos e mesmo conosco.
 
E vejo tudo isso acontecer, ao olhar das torres deste forte no Deserto dos Tártaros, enquanto outros soldados são abatidos pelo inimigo invisível, enquanto coleciono em pequenas caixas as memórias daqueles que perdemos e dos que ainda estamos por perder.