Théo Alves

29/11/2020
 
Era um deus, não era um deus
 
 
 “Muitas vezes me dizem: você é Deus. E eu respondo: vocês estão equivocados. Deus é Deus e eu sou simplesmente um jogador de futebol.”
- Diego Armando Maradona
 
Pelé é o maior jogador de futebol de todos os tempos. Com as três copas que venceu pela Seleção Brasileira, os mais de mil gols marcados, pela qualidade de seu jogo e a maneira como vencia zagueiros e goleiros, pela revolução física que representou na evolução do futebol definitivamente não é possível questionar que Pelé tenha sido mesmo o maior jogador de todos os tempos. 
 
Maradona é o mais humano e melhor jogador de futebol de todos os tempos. Um artista da bola, com toda a intempestividade e inquietações que alguns dos maiores artistas apresentam. Por exemplo: a maneira como El Pibe de Oro destruiu o exército inglês em campo, uma espécie de vingança pela Guerra das Malvinas, não foi apenas eficiente e precisa. Foi belíssima, artística, irreverente, irônica, provocativa e sagrada, como é toda grande obra de arte, como foi toda a Copa de 86, a Copa de Maradona. 
 
Por isso acho a discussão sobre quem foi o maior jogador de todos os tempos um bocado desnecessária. São universos tão diferentes que apenas por muito pouco se encontram: foram dois deuses em campo, cada um em seu tempo. Mas, diferentemente de Pelé, Maradona é um personagem cuja história fora do futebol é infinitamente mais interessante. 
Infelizmente, eu vi Maradona jogar em seu tempo bem menos do que gostaria. Minhas lembranças mais precisas datam das Copas de 1990 e 94, quando eu tinha nove e treze anos. Em 1990, a família estava reunida para ver o clássico Brasil X Argentina pelas oitavas de final da Copa da Itália. Eu, já completamente apaixonado pelo jogo gostava mais da História do que da Seleção, vi Maradona lançar uma bola primorosa para Caniggia e o gol da Argentina calou toda minha família em volta da TV. Calou um Brasil inteiro.
 
Por mais triste que todos tenham ficado, e eu também fiquei, a mística em torno de Maradona, o jeito como dominava a bola e se movia com absurda agilidade e beleza eram grandes demais. El Pibe saltava da tela e parecia jogar bola, brincar como se estivesse na sala de casa de um jeito que ninguém mais seria capaz de fazer. Embora a derrota brasileira fosse triste para a criança que eu era, Maradona me impressionava e encantava demais. Era impossível odiar o deus que eu via em campo e de quem tanto tinha ouvido falar, um pequeno índio capaz de criar o futuro do mundo todo usando uma bola.
 
Enquanto crescia, minha relação com o futebol era cada vez mais amor e cada vez menos paixão: estava aprendendo a ver o esporte como algo além da simples gritaria e do choro de ganhar ou perder. Assim, o encantamento que Maradona causava sobre mim era sempre mais impactante, mesmo diante da decadência de seu futebol à medida em que sua carreira como jogador se aproximava do fim.
 
Os jogos clássicos gravados foram me permitindo ver e gostar ainda mais de Maradona como jogador em campo. E sua irreverência, suas respostas inteligentes, irônicas e conscientes de quem era o homem Maradona também se juntavam ao que eu pensava sobre como devem ser os ídolos. O posicionamento político, a noção de povo, de classe e a maneira como ele combatia guerras que eu julgava justas faziam com que Maradona se tornasse um herói também para mim. 
 
Os muitos infortúnios, os erros, o mal que fez a si mesmo ao longo dos anos não diminuíram minha admiração por Dieguito: imaginar que um deus em campo, cuja mão e o pé esquerdo eram capazes de falar a língua dos anjos, era também humano e que não se furtava a seus erros, à sua emotividade, às vitórias e derrotas que teve como pessoa me aproximavam dele. Maradona era um deus possível para mim.
 
A morte do homem Diego Armando Maradona Franco no último dia 25 deixou ainda mais claro para mim algo que vivo a repetir: morre o homem, permanece a obra. A lembrança de El Pibe é algo que segue comigo até que o tempo apague minha memória.