Théo Alves

20/12/2020
 
O ano dos sonhos de ninguém
 
 
Certamente 2020 não foi o ano dos sonhos de ninguém. Muitos de nossos planos foram interrompidos ou tomados de nós ainda no berço, assim como o confinamento e o medo nos puseram cheios de dúvidas diante do futuro e até mesmo de nosso presente. 
 
Fomos todos surpreendidos por uma pandemia que nos forçou a desacelerar a vida, os meios de produção e a forma de viver nosso cotidiano. As noites dos fins de semana passaram a ser vividas em casa, diante de telas e conectados à internet. Descobrimos que era preciso conversar com as pessoas que partilhavam o mesmo teto. Além disso, enxergamos, ainda que de passagem, aquelas que vivem nas ruas, pois elas não tinham casas onde pudessem se fechar.
 
Nós não sonhamos com um ano de tantas e tantas chamadas de vídeo ou em que tanta gente estivesse em casa ao mesmo a ponto de causar sobrecarga nas bandas de internet. 
 
Máscaras sufocantes e litros de álcool gel também não faziam parte de nossos planos para 2020. A obsessão por lavar as mãos e os inúmeros rituais de profilaxia que fizeram de qualquer saída emergencial de casa uma espécie de operação de guerra.
 
Mas é diante de grandes desafios como este 2020 que temos a chance de refletir, de ressignificar e criar perspectivas, novas possibilidades e soluções inesperadas para os dilemas que ainda nem tínhamos. 
 
Se este não foi o ano com que sonhávamos, foi certamente o que mais nos obrigou à criatividade para a sobrevivência. Reduzimos o mundo inteiro ao tamanho de nossas casas, algumas menores que outras. Entendemos a importância das janelas e da arte como possibilidades de respiro. 
 
Foi extremamente doloroso ver nossos irmãos vitimados pela Covid 19 e pelo descaso que nos governa. As cenas terríveis que testemunhamos, e que corremos o risco de ver repetidas em breve, não vão e não podem ser apagadas de nossa memória. Esquecer o que vimos é abrir a possibilidade de repetirmos tudo pela via da ignorância e não podemos deixar que isso aconteça. É muito mais importante não esquecer do que lembrar.
 
Ao mesmo tempo, este foi um ano de muitos episódios de solidariedade, de alguma compreensão de nosso papel social e político, de compreensão da falta que nos fazem aqueles que amamos e do entendimento da necessidade de sermos pessoas melhores. Ainda que a palavra humanidade pareça mais desgastada que revigorada nestes tempos.
Cabe a nós agora decidir o que 2020 significará, como pensaremos nele no futuro e como olharemos para trás quando ele for passado. Fato é que nenhum ano é um ano perdido e a nossa capacidade de reinvenção é o que nos permite nos adaptarmos em busca de uma vida melhor e que estejamos prontos para 2021.