Eliade Pimentel

02/10/2023 12h15

 

Banho de lágrimas na praia de Upanema

 

Um dia em Areia Branca, meus pés irão pisar. Havia mais de cinco anos que eu cantarolava uma versão própria da clássica música de Roberto Carlos, dedicada a Caetano Veloso. Pois é, fazia muito tempo que eu gostaria de conhecer a Costa Branca do Rio Grande do Norte, o litoral depois da curva, lá onde se produz o sal consumido no Brasil e noutros cantos do mundo.

E ao conhecer o filho de uma areia-branquense, a luz do meu radar se acendeu ainda mais forte. No entanto, existem situações em que, quanto mais se deseja algo, mais essa coisa foge de nossa mão. Porém, quando eu pensava em desistir, chegou o momento de eu pegar o rumo da BR-304 e conhecer a tão falada cidade, terra do meu amigo Carlão de Souza e do compositor Mirabô Dantas, aquele que tem uma música linda de viver, Mares Potiguares, cujo verso inicial é uma aula sobre a diversidade feminina do estado.

“As potiguares são iguais, mas de potes diferentes”... No sábado de meu final de semana perfeito em Areia Branca, eu me banhei na Praia de Upanema, de lágrimas e da água do mar, tendo um por do sol perfeito a me emoldurar. E só de me lembrar, voltam-me as lágrimas daquele banho tão especial. Banhava-me, cantarolando e dançando, num balé pessoal, lembrando-me do meu amigo Carlão, o qual jamais esquecerei, por nada nessa vida.

Tentava imaginá-lo ainda criança, e depois jovem, recitando poemas, ouvindo música, admirando a pesca, pegando na areia da praia, tentando construir castelos. Algo me tocou tão profundamente ao me banhar naquele mar, que tive a sensação de flutuar para além do normal. Chorei e me aqueci naquele entardecer, com as minhas próprias lágrimas. Tive a sensação de que fui conhecer seu berço exatamente para chorar sua partida, que para mim não é fato.

Pois ele vive em mim sempre que me relembro de cada palavra de incentivo que eu recebia a cada encontro. Elogiando-me, elevando minha autoestima, contribuindo para a minha formação de jornalista, de repórter, de editora, de escritora. E, ao mesmo tempo em que renovava meu elo com um dos meus principais mentores intelectuais, eu renovava os laços que me levaram até aquele lugar tão especial.

Na praia, um moço bonito aguardava pacientemente que meu espetáculo se encerrasse. Esperou que eu enxugasse as lágrimas, recuperasse minha aparência, voltasse a sorrir após aquele banho embriagado em lembranças. Para ser sincera, não imaginei que um passeio para visitar a família do meu companheiro fosse se transformar em um mergulho naquelas memórias alocadas em mares nem tão profundos assim.  

Foram três dias e noites de muita intensidade. E só digo uma coisa, vale à pena deslocar-se tantos quilômetros da capital potiguar até alcançar a Costa Branca. De carro ou de transporte público, esse mais complicado, mais lento e pouco eficiente, é preciso sair da zona de conforto para conhecer uma parte tão preciosa do nosso litoral. Lá onde as paisagens nos fazem lembrar que estamos a dois passos do semiárido.

O sertão vai virar mar, o mar virou sertão. Naquelas bandas do Rio Grande do Norte, a Caatinga também se amostra com classe. E eu apenas sigo o meu coração. Que as próximas viagens sejam em menos espaço de tempo. Quero voltar e gozar de novo daquela hospitalidade, quero voltar e observar de novo a paisagem e a brisa de Grossos, cidade vizinha que conhecemos via balsa, quero voltar e sentir de novo o prazer de ser tão feliz por tão pouco! Até logo.

 

*ESTE CONTEÚDO É INDEPENDENTE E A RESPONSABILIDADE É DO SEU AUTOR.


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