Daniel Costa

05/04/2019
 
POR QUE ELAS CRESCEM?
 
 
Ela acorda sorrindo ou chorando. Vai depender do dia. O humor é um negócio desgraçado. Se der choro aí vem o leite, a conversa, uma brincadeira aqui e outra acolá, e o problema tá resolvido, ao menos durante os próximos cinco minutos, tempo de tomar um café e ficar a postos para a batalha seguinte, que envolve diversos duelos entre água, braços, cabelos e escova.
 
Se ao abrir dos olhos ela desperta com um sorriso, aí o negócio muda de figura. O sossego prosperará por cinco minutos, até que lhe dê na telha de chorar porque a mamadeira não está na temperatura adequada, medida sabe-se lá como, talvez com base num termômetro acoplado ao céu da boca das crianças, ou coisa que o valha.
 
Depois, vem o banho, a escola e outras tantas pelejas igualmente reguladas pela tabela temporal dos cinco minutos de variação de humor, que se estabelece como uma regra até o primeiro suspirar de sono, que chega próximo às dez da noite.
 
Um dia ela me acorda chutando a porta do quarto e pergunta se eu já conheci uma bruxa; no outro choraminga porque não tem mais blush vermelho; ou porque o diadema se partiu ao meio, "e assim, papai, não dá mais pra desfilar produzida na sala, com o salto agulha da mamãe".
 
Aí mela a cama de tinta, suja o sofá, espalha os brinquedos pelos quatro cantos do apartamento, como se o furacão Katrina tivesse passado por lá, até que, enfim, leva uma bronca e se transfigura numa bolinha de pelo felpuda e maquiavélica, que imita o grunhido de um bebê de colo, se agarrando à minha cabeça para puxar, às gargalhadas, os cabelos que já se foram.
 
"Mas por que elas crescem?", alguém certa vez me perguntou. E eu fiquei a matutar de onde viria esse sentimento saudosista dos pais. E acho que talvez tenha relação com aqueles cinco minutos de sossego e de alegria, quando as peças do quebra-cabeça da felicidade parecem se encaixar.