Daniel Costa

11/03/2020
 
SÉRIOS RISCOS
 
 
Depois do  Carnaval  as coisas esquentaram. O presidente escancarou o que qualquer um que acompanhe o movimento político, sem a passionalidade de um torcedor de futebol, já sabia: ele pretende vestir uma balaclava na democracia. A convocação  para o próximo  dia  15 tem como mote um ataque ao judiciário e ao legislativo. Bolsonaro já declarou apoio à manifestação. O seu desejo, sem meias palavras, é o de queimar algumas páginas da Constituição e com isso governar distante das interferências dos outros poderes, para, enfim, se sentir proprietário do Estado e em seguida fazer constar o seu nome e o dos seus familiares nos mapas, nas praças e nas fachadas dos prédios públicos. 
 
As reações  contra essas intenções, por outro lado, são tímidas. Os presidentes do Supremo e do Senado preferem tratar o assunto entre talheres e plateau de fromages, sob o argumento de que é melhor deixar o chefe do executivo falando sozinho. A direita racional, ao ver alguns dos seus interesses acolhidos pelo governo, permanece em silêncio. Ela faz de conta que tudo não está tão mal assim desprezando o fato de que o momento de colocar a boca no trombone parece haver chegado. E a turma da esquerda, apesar de possuir uma pauta em comum, continua desconjuntada sem conseguir colocar o bloco na rua.  
 
O que  acontecerá  depois do dia 15? Difícil  saber. Mas é  possível  imaginar que se a claque bolsonarista ocupar os logradouros em peso, o presidente se achará na confortável  posição  de partir de vez para o vilipêndio às instituições. Afinal de contas, se os outros ainda não conseguiram perceber a importância da atual primavera, Bolsonaro parece ter intuído isso, já que com a crise econômica avançando brutalmente sobre a renda da população e o seu governo arrotando incapacidade crônica para produzir o mínimo de progresso; a manutenção do poder central, sem o desrespeito radical da lei, passa a correr sérios riscos.