Cláudia Fragoso

28/11/2021

 

“Leve isso para a terapia!”

Você já ouviu essa expressão? Já lhe mandaram tratar um determinado assunto ou “problema” na terapia? Só semana passada passei a compreender com mais profundidade as entrelinhas dessa frase. Pode parecer óbvio, afinal se alguém diz isso está claro que você tem uma demanda que deve ser falada em terapia. Ponto final. Será?

Será que a questão de fato é sua? Ou o incômodo é da outra pessoa em não conseguir lidar com aquilo em você? Digamos que você tenha medo de cachorro. Um medo que lhe faça não querer entrar na casa de alguém que possua cachorro grande e que esteja solto. E aí quando você chega na casa, a pessoa solta essa pérola: “É bom levar isso para a terapia!”

Vamos aprofundar um pouco porque analisando assim me parece muito superficial. Não estou dizendo que quem tem um medo deve negá-lo, nem que não pode ou não deve levar esse ou outros medos para a terapia. O que trago aqui tem um conteúdo mais implícito. Estou falando, principalmente, de projeção. A projeção é um mecanismo de defesa do ser humano que, em situações inconvenientes ou estressantes, faz com que a pessoa projete no outro aquilo que não é do outro. Por exemplo, é aquela pessoa que ao se deparar com o trânsito já começa a esbravejar: “Ahh, que imbecil, como é que faz uma manobra dessas?”; “Mas que absurdo o governo, não faz nada diante desse caos” ou ainda, fala para algum passageiro “É culpa sua que quis sair nesse horário!”. 

O trânsito é real? Sim! A pessoa que fez a manobra pode estar errada? Claro! O horário que saiu pode não ter sido o melhor? Pode! Isso significa dizer que o motorista está coberto de razão?

Não é porque existem problemas no mundo e com todos os outros ao seu redor que você precisa ficar tão incomodado assim com tudo e com todos! Sabe aquela famosa frase que diz “Quando João me fala sobre Maria, sei muito mais sobre João do que sobre Maria”? Então, o sentido é o mesmo, quanto mais você se expressa sobre os “defeitos”, “medos” ou características do outro, mais sei sobre você! Sobre o quanto se importa com isso e o quanto deixa de olhar ou cuidar dos seus possíveis problemas ou questões. Não se engane, até aquele exímio motorista, até aquela pessoa que ama animais e não tem medo de nenhum, tem problemas. Todos nós temos assuntos a “debater” em uma sessão de terapia.

Mas quem deve decidir sobre quais assuntos levar? De quem deve ser o incômodo a ser levado a um psicoterapeuta? É até engraçado levantar essas perguntas! Porém acho necessário colocar aqui para que eu e você, possamos refletir sobre o tipo de “invasão” que talvez estejamos realizando na vida do outro e também para que não se sinta só! E para terminar, trago aqui um poema da Gestalt (uma abordagem teórica da psicologia) de um autor muito famoso (Pearls): 

“Eu sou eu

Você é você

Eu faço minhas coisas

E você faz as suas

Se por acaso nos encontrarmos, será lindo

Se não, não há nada a se fazer”