Eliade Pimentel

20/05/2021
 
A cultura do feedback
 
 
Creio que poucas pessoas que eu conheço convivem bem com críticas. De repente, nem eu mesma goste de ouvir certas “verdades”. E uma delas, a de que eu pareço ser acomodada, me incomoda um pouco. Realmente, para algumas coisas me acho meio parada. Em compensação, para outras eu até sou bastante resolutiva. Concluo, pois, que as pisadas mais lentas que eu dou na vida, na verdade, ocorrem justamente onde estou com receio de errar, de fracassar. Isso, talvez, seja o que acontece com algumas pessoas. 
 
O fato é que tenho convivido bem do jeito que eu sou, acelerada para umas coisas, parada e devagar quase parando para outras. Busco melhorar sempre, tentando às vezes ignorar certas críticas, ou absorvê-las. Convenhamos, é chato ter de admitir que estamos errados. E é chato também admitir que não sabemos expressar de maneira civilizada a nossa crítica. Me refiro ao lado oposto da situação, a posição de quem aponta o dedo. Como apontar sem ferir alguém? Como falar com alguém sem parecer que estamos brigando? 
 
Lendo outro dia sobre o modo de vida do povo israelense, vi que eles cresceram em 75 anos de existência enquanto país, e nós, nessa batalha há séculos, ainda estamos comendo poeira. Tecnologia, saúde e educação são os fortes deles. Ao contrário de nós, eles aceitam bem a cultura do feedback. Como assim? Estava escrito na reportagem que a galera de lá, quando ouve uma crítica, corre pro lado contrário para melhorar e trazer resultados ainda mais impressionantes do que se esperava. Toquei nesse assunto de Israel, mas já me arrependi, diante da intolerância religiosa com os palestinos. Mas, não vou me estender. Não estou defendendo seu posicionamento político, toquei num ponto que atribuem como característica deles, digamos que o perfeccionismo estimulado pela crítica.
 
Aqui, se alguém expõe seu ponto de vista, geralmente discordando do que se espera ouvir, normalmente é mal interpretado. Então, existe uma espécie de convenção entre nós. A vendedora de uma loja prefere mentir sobre a roupa experimentada pela cliente; um amigo se omite de dizer que achou superficial a atuação da amiga no teatro; a namorada prefere dizer que gosta de ficar em casa, em vez de sair para se divertir em lugares públicos. No trabalho, há uma convenção que não podemos dar um toque a colegas na mesma posição. Pode parecer pedantismo demais de nossa parte. Temos de estar num patamar superior para que sejamos ouvidos. 
 
Mesma coisa na escola. Será que não temos autoridade para ralhar com os colegas que estão dispersos, prejudicando o andamento da turma? Lembro que sempre que uma garota se manifestava na sala, pedindo silêncio, a galera fazia mais barulho ainda. Estavam certos? Não, de modo algum. Mas, não se achavam no direito de calar a boca, justamente porque era uma colega querendo aprender, para fazer no vestibular. Que pretensão, estudar, aprender, quando a turma está na sala para fazer balbúrdia. 
 
No ambiente do trabalho, no ambiente familiar, com amigos, com o companheiro, com a companheira, na faculdade, seja onde for. Onde estamos acertando, onde estamos errando, será um problema meu que tem causado turbulência nas relações? E o seu problema, qual é? Já pensou sobre ele? O que eu faço está prejudicando alguém? O que você faz está prejudicando alguém? A forma como eu vivo está prejudicando alguém? O meu jeito de ser está prejudicando alguém? 
 
Comecei a pensar nisso, numa espécie de mea culpa coletivo, em que todos nós colocássemos as questões interpessoais numa mesa imaginária. Realmente, não é fácil agradar todo mundo, aliás, não é fácil agradar nem a nós mesmos. Principalmente quando temos um grau extra de exigência com tudo o que fazemos. Escrevendo aqui e pensando em que pontos eu posso melhorar, de que forma, e já estou me cobrando para voltar a colocar a mão na massa em coisas que requerem a minha atitude. 
 
Digamos, projetos e sonhos que eu abandonei, ou hábitos que andam meio esquecidos, mas que têm me feito muito falta. Alguns desses pensamentos foram estimulados pelas críticas externas, outros pela autocrítica mesmo. Convido vocês a fazerem o mesmo. Voilá.