Eliade Pimentel

05/07/2021
 
A mulher dos textos perfeitos
 
 
Saio de uma reunião de trabalho e aproveito para conversar, no saguão, com alguns colegas os quais eu nunca mais tinha visto, devido à pandemia.   Para minha (grata) surpresa, recebo de um desses rapazes uma descrição que me pareceu um tanto quanto exagerada sobre a minha pessoa. Mas, como já me disseram que não se deve recusar presentes, penso que a mesma regra se aplique aos elogios. E não só o aceitei, como estou utilizando-o como o título da minha colaboração semanal. 
 
"Sabem como ela é conhecida por aqui? A mulher dos textos perfeitos".  Lógico que fiquei extremamente lisonjeada, porém, um pouco constrangida. Estávamos em um grupo formado por homens e somente eu de mulher. Nenhum daqueles meus colegas, em nenhum outro momento, nem pessoalmente, muito menos de forma virtual, jamais dissera qualquer coisa para mim que não fosse referente ao próprio trabalho e nunca nenhum deles foi licencioso no sentido de fazer algum comentário inadequado, como uma cantada, por exemplo. 
 
Quer dizer, essa rápida constatação fez com que eu aceitasse o elogio sem afetação, como a mais pura declaração que veio de um coração bom, sem segundas intenções. Um sujeito que lê meus textos, que sente as paixões, os zelos, as necessidades e as vontades expostas em minhas bem traçadas linhas. Que percebe minhas frustrações e decerto até pensa se já sentiu algo parecido. Com certeza é uma pessoa que abraça quem tem frio e acolhe quem padece de fome. Mas, sobretudo, que luta com as mesmas armas que eu para ser ele mesmo. Todos sabemos que não é fácil ser nós mesmos em todos os lugares por onde transitamos. 
 
A depender do ambiente de trabalho, é cada vez mais difícil. O sistema meio que obriga que sejamos um personagem. E com atuação perfeita, para que a nossa verdadeira personalidade jamais seja revelada. Através das crônicas, das postagens para redes sociais e até mesmo dos textos, digamos técnicos, que por conta do trabalho ele tem acesso, meu colega visualizou que a pessoa que transita ali, naquele ambiente austero, é na verdade uma pessoa cheia de histórias para contar, que extrai lições de vida até mesmo das situações mais adversas e, o mais importante, que tem sempre um lado bom para se agarrar.
 
Para quem sempre foi apaixonada por ler e escrever, e fez desse sentimento a sua profissão, ao mesmo tempo em que goza de espaço para expor seus sentimentos publicamente, ouvir que sou a mulher dos textos perfeitos foi algo que entrou em mim com muito mais força do que um elogio. Foi a sensação de que meu compromisso é bem maior. Compromisso de comunicar com pessoas que acreditam que as palavras têm poder. Poder de acalentar, poder de alegrar, poder de transformar. 
 
E poder de ferir também. Nesse caso, sou meio perita nisso, nas palavras ditas, faladas. Sem senões, nem porquês, queimo ruim em determinadas situações. Sou meio destrambelhada. Quando vi, já saiu. Já ecoou. Porém, esse é o outro lado de uma pessoa que se sente justiceira em alguns aspectos. Nesse mesmo dia (do encontro elogioso), recebo uma mensagem de uma colega dizendo para eu parar de me preocupar com outra colega, que está numa situação meio complicada. Nem lembro se eu respondi, ou só pensei, que deixar de pensar em quem sofre injustiça é quase que pedir o impossível a mim. 
 
Certo dia, falei a uma poeta, escritora e colega jornalista o quanto eu queria ser como ela, quando eu conheci seu trabalho. E ela me disse que eu já sou eu. Não preciso mais me espelhar em outrem. Mas, o que eu queria mesmo, nesse momento, é fazer jus ao elogio tão espontâneo que meu amigo fizera mais cedo. Eu queria ser a mulher dos textos perfeitos. Pois, para mim, escrever é um trabalho não apenas de criação, é quase um sacrifício, pois conjuga o exercício mental, que é bem doloroso para mim, com o trabalho braçal de digitar, de teclar as palavras que aos poucos vão preenchendo a tela vazia. 
 
E às vezes, os prazos curtos e os temas complexos que exigem textos longos, bem elaborados, tornam meu trabalho um tanto quanto angustiante.  Serei a mulher dos textos perfeitos quando eles forem concluídos sem deixar sequelas em minha minha mente cansada. E talvez, quando eu conseguir ditar para o gravador o pensamento que eu idealizar como um texto escrito, e não falado, ganhando tempo e sofrendo menos cansaço físico. Meu raciocínio funciona interligado aos dedos que digitam. É estranho ditar o que eu penso. 
 
Faz parte do processo, por exemplo, escrever, apagar, escrever de novo, mudar, copiar e colar de mim mesma, subir a frase, descer o parágrafo, contar as letras, pesquisar um sinônimo etc. Escrever é minha profissão. Escrever é meu ofício. Muitas vezes um texto que vai e não volta para correções é meu atestado de acerto. Mesmo sem a clareza que se espera de um retorno, mesmo sem um elogio explícito, eu considero que minha oração alcançou o céu quando o que escrevo cumpre bem seu papel. 
 
Dedico o texto de hoje a meu amigo e colega Pinto Júnior, que reconheceu em mim não a mulher dos textos perfeitos, que está longe de existir em mim, mas uma jornalista que vive uma vidinha simples e saudável e tem muito a compartilhar com os leitores do portal que ele criou e nos deixou, em seu vasto legado profissional. Obrigada por me permitir exercitar a livre expressão nesse espaço tão nobre. Hasta la vista, companheiro!