Eliade Pimentel

16/08/2021
 
Ardente como um sonho de verão
 
A primeira vez que eu tomei aquele cafezinho aconteceu sem que eu percebesse a força da bebida servida com tanto carinho. Primeiro o convite ao café, depois ao peixe frito, ou ordem inversa, não me recordo bem. Diante da simplicidade daquela casa e de sua proprietária, não resisti ao encanto com que tudo aquilo se apresentava a mim, de uma maneira absolutamente despretensiosa. Fiquei apaixonada pelo lugar, por sua gente, por suas histórias. Lembro que uma aventura de domingo, com uns amigos recém-conquistados, originava a paixão que me conduz até hoje.
 
Alguns falam da água, outros de seus encantos mil, lagoas afora, mata adentro. Eu atribuo esse amor todo ao café. Sim, aquele meio copo de café que me foi servido num certo anoitecer, alguns anos atrás, mudou a minha vida. Forte na medida certa, com um sabor confortante como o de uma boa amizade. Ainda amargo, porque o açúcar era colocado ao gosto da visita, eu preferi colocar uma colherinha de nada, bem pouquinho. E ouvi a dona de casa lembrando que se eu quisesse mais doce não tivesse vergonha.
 
Na hora não me senti constrangida por nada. A não ser pelo fato de que o motivo que me levara àquela casa houvesse se dispersado por causa do convite ao cafezinho. A doce senhora é até hoje minha amiga. Quão surpresa fiquei ao me descobrir doente, quando já era residente daquele lugar mágico, e precisei levar apenas um quilo de açúcar para ter direito a um lambedor (ou xarope caseiro para expectorar). Em seu quintal, cheio de plantas por ela cultivadas, nascem plantas de nomes variados que somam sete, nove ou doze ervas, necessárias para a tal “mezinha”.
 
Fiquei boa da tosse e até hoje me valho desse expediente quando preciso limpar os pulmões. Para não abusar de minha boa amiga, tentei fazer em casa. Fácil dizer que não acertei o ponto. Ficou ralo demais, acho que não tive paciência o suficiente. Aliás, referindo-me a essa qualidade daquela senhora é que retomo ao assunto do café. Em uma de minhas visitas ao seu “laboratório”, digo, quintal, eu me deparo com alguns de seus segredos guardados a céu aberto. Uma lata velha é responsável pela torrefação. Uma imensa concha de madeira faz as vezes de pilão.
 
Ela repete o ritual periodicamente. Abastece sua despensa e a dos filhos. Quando os vizinhos querem, mandam um real ou dois para pagar o mimo. Há muitos anos, perdidos no tempo, o café é “morto no pau” naquela casa. Minha amiga não se contenta em ir ao supermercado ou padaria comprar meio quilo de café torrado e moído fino, como todas as pessoas que eu conheço costumam fazer (e eu inclusive). Dona Biu faz questão de adquirir os grãos, torra-os, com um pouquinho de açúcar, e depois quebra-os no pilão. O trabalho é redobrado, mas o sabor é inigualável. (FIM). 
 
Peço permissão, nesta semana, aos leitores de o Potiguar Notícias, para republicar o texto acima, escrito em 2009, e publicado num blog antigo meu. Para que não se perca pelas nuvens, e para reafirmar a minha ligação com Baía Formosa, a cidade do ouro olímpico do surf que eu tanto amo. O café morto no pau, ainda hoje feito por uma ou outra família do litoral potiguar, casa perfeitamente com as outras delícias que eu conheci na cidade, como o beiju, o cuscuz de mandioca mole com um peixinho frito, e as raivinhas e cocorotes produzidas pelas padarias. 
 
Espero despertar nas pessoas o desejo de ir mais a fundo em BF, lugar especial que fez nascer em mim uma outra pessoa, muito mais contemplativa, mais praieira, cada vez mais simples, mais naturalista e também muito mais ativista. Desejo que todas as minhas boas impressões, que lapidaram a minha personalidade e até hoje marcam a minha existência, funcionem também como o despertar de uma nova era em Baía Formosa. Muito mais sustentável e cada vez mais bela e agradável. Aloha!!