Fabio de Oliveira

27/09/2021
 
Educação colonial: conflitos e perspectivas frustradas
 
 
Lembro-me dos primeiros anos na escola, em meados da década de 90. Além de aprender a ler e escrever, não aconteceram grandes aprendizados dentro de uma perspectiva sobre me situar na sociedade, como os fatos ao meu redor me influenciaria e aos nossos. Apenas seguia os horários de ida e volta da escola, com as mesmas tarefas e narrativas de sempre. Ausentavam-se reflexão, criticidade e incentivo! Estamos em 2021 e não vemos muitas mudanças nesse cenário, e as poucas que acontecem, tanto na escola como na academia, o sistema as torna anônimas.
 
Por uma ótica macro sobre o sistema educacional brasileiro, eu tenho a ousada reflexão de compará-lo a uma fábrica. Sim, isso mesmo, uma fábrica. Somos fabricados e dependendo de quais peças são utilizadas nessa arquitetura, o lote é finalizado com todos idênticos, do jeito que o sistema precisa e molda para continuar operando. Assim segue o funcionamento da educação, a ponto de ser normalizado sem questionamentos.
 
Seja pela omissão e corrupção, seja pela mediocridade dos profissionais da educação, O Estado contribui para a manutenção desse funcionamento, porque seres pensantes e críticos são perigosos para o sistema político-econômico em que vivemos. Embora existam dispositivos legais – como as Leis 10645/08 e 10639/03 – que vão gerar um contra discurso, a falta de execução dele é um fator que favorece a inércia dos pensamentos e a capacidade de reflexão.
 
Ao finalmente ingressarmos na academia, imaginamos ter acesso a conhecimentos diversos, de distintas perspectivas e desenvolvermos uma criticidade que garanta debates produtivos, mas os conteúdos continuam sendo baseados nas mesmas narrativas da escola. Em todos os departamentos que estudei, durante quatro anos, continuei lendo as referências bibliográficas indicadas nas aulas. Afinal, era conteúdo avaliativo; não me foi apresentado outras narrativas diferentes das de sempre – mais uma vez! Algumas obras dialogam com uma realidade da qual estava enxergando gradualmente, por meio de vias de estudos fora da sala de aula.
 
Pensar e questionar sobre todo aquele conjunto de ideologias coloniais, fazia-me perceber situações sutis no campus: as avulsas movimentações sociais, os debates superficiais de estudantes acadêmicos nas praças e tantos outros fatos. Gerava-me conflitos a ponto de até questionar-me sobre o espaço do qual estava ocupando. Mesmo essa percepção sendo tardia, ela foi válida e necessária para o discernimento que tenho hoje. Claro que conhecimento nunca é o suficiente e estamos em um constante aprendizado.
 
Semana passada, vi que havia sido publicado um processo seletivo para o mestrado de determinado departamento. Conversei com minha esposa, Ana Paula Campos, sobre a possível tentativa de participar desse processo, mas será que a universidade está pronta e disposta para receber meu projeto? Tenho divergências com a academia, e tantos outros e outras têm e terão também, porque a narrativa do colonizador também está na lá. Acredito que uma pequena parte da docência luta contra isso. Ainda podemos ter uma faísca de esperança.
 
Sutil e anonimamente, assim como eu, outros estão fazendo as coisas acontecerem a partir das narrativas dos nossos, com e/ou fora da academia. Continuarei com minhas leituras, estudos e projetos para fins coletivos, independentemente de estar na academia ou não.
 
Não podemos esperar que práticas educativas decoloniais partam do Estado, pois jamais partirão. Façamos nós por nós, para efetivar mudanças transformadoras e significativas.