Mônica Cavalcante

02/08/2022

 

A nação cujo deus é o senhor da fome, da violência e da morte 

 

Esse texto é dedicado à cultura do uso do nome de Deus na tentativa propagandista em construir narrativas pseudoreligiosas para atingir as mentes e os corações do povo e rumo ao poder.
 
Minha escrita alerta que nada tem de pessoal e, sendo este um artigo de opinião, tem total intencionalidade de apresentar o ponto de vista desta coluna, que está atenta aos sinais do Universo e aos os fatos relacionados, que não foram inventados por mim, mas como cidadã livre, tem como objetivo posicionar-se a respeito de questões importantes, que vão desde aquelas relacionadas à política, à educação, ou voltadas aos valores sociais e à ética.
 
A referência constante à palavra “narrativa” pelo campo da política fascista que vem atuando em nosso país e tem como objetivo ser um potente argumento político, que usa o viés de confirmação de defesa da família, do patriotismo, do conservadorismo, para desqualificar qualquer crítica ou denúncia contrária ao pensamento associado à retórica golpista.
 
A comunicação de forma objetiva e populista vem conseguindo transmitir ideias com convicção, somado ao discurso de "salvação da pátria" e “defesa do Brasil contra o inimigo". A tentativa é moldar as noções de Estado, governo e organização democrático aos interesses autoritário, rumo ao desmonte e entreguismo de nossa nação.
 
Também o sarcasmo e o apelo são objetos da tática golpista no sentido de fortalecer a sua militância já consolidada, bem como adoção do uso da força, com métodos agressivos, levando os indivíduos a enganarem-se com a falsa ideia de “projeto de libertação para nossa nação”, reforçando alguns estereótipos, segregações, inimizades e até mesmo extermínio de determinados grupos.
 
E como elemento estratégico e proposital, seu principal aspecto é a administração sobre onde, quanto e quem vai ser descartado, elencando alvos e afetando sempre as mesmas raças, classes sociais e os mesmos gêneros.
 
E quanto mais frágil for determinado grupo (em classe, raça, gênero, etc.) – sejam mulheres, indígenas, pretos ou outras minorias – maior o desequilíbrio entre o poder da vida e da morte sobre esse grupo, por isso ainda vivenciamos a degradação, extermínio e controle dos corpos e até mesmo dos nossos desejos.
 
Esse exercício de dominação é contínuo. Não cessa. E isso tem nome: NECROPOLÍTICA.
O QUE A NECROPOLÍTICA TEM A VER COM A QUESTÃO DA MULHER?
 
Para construir a relação entre necropolítica versus feminismo, muitos infelizes exemplos que circulam em nossos meios e em nosso noticiários podem servir.
 
Mas peço licença para um destaque em referência a este mês que iniciamos o “Agosto Lilás”, mês de conscientização com objetivo de intensificar a divulgação da campanha de enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher marcado pela criação da Lei Maria da Penha, promulgada em agosto de 2006.
 
Fora publicizado o teor de uma mensagem nomeado como "Feministos e Feministas” que suscitava um debate entre colegas acerca de “um drama vivido muito mais pelos homens diante das feministas ou falsas conservadoras. 
 
Também há neste mesmo material, uma análise sobre as ideias e comportamentos das “feministas” sobre sentir-se uma “vergonha da condição feminina, e atribuição ao feminismo sendo “transtornos mentais e problemas familiares”.
 
O texto revela a queixa dos “direitos” do patriarcalismo e seus adeptos, quanto ao não cumprimento da obrigação sexual de suas esposas para com os seus parceiros, sob pena da esposa que não cumpra o débito conjugal deva ter explicações e punição de “dissolução da união e perda de todos os benefícios patrimoniais”, reforçado pelo argumento de que esta é a razão quem tem levado muitos maridos a “traições desnecessárias, consumo de pornografia e ao divórcio.”
 
Essa é uma das faces da necropolítica do governo atual que defende uma “nação cujo deus é o senhor da fome, da violência e da morte”, a prática comportamental machista, cujas opiniões e atitudes visam o estabelecimento e a manutenção das desigualdades e da hierarquia entre os gêneros, corroborando a crença de superioridade do poder e da figura masculina.
 
O histórico de machismo, misoginia, sexismo, a fome instalada nos lares das famílias agravado pela pandemia, do negacionismo científico, do autoritarismo, do porte de armas, da rejeição aos direitos humanos, e de ataque aos direitos do povo, revelam que esse conteúdo está sendo orquestrado para levar as mulheres de volta ao passado e a uma condição submissa, tirando suas possibilidades de emprego, minimizando sua capacidade de atuar politicamente.
 
Mas os homens, ao mesmo tempo que podem ser causadores desses episódios, também sofrem as consequências do comportamento, ainda que indiretamente, pois na lógica machista, ou se é homem ou não se é nada (essa é a MASCULINIDADE TÓXICA, que vai ser assunto para um outro artigo).
 
 Daí o “ser homem” é não ser ou ter qualquer comportamento dito como “feminino”, acerca da noção que valoriza qualidades como dominância e controle, enquanto despreza aspectos como vulnerabilidade, altruísmo e compaixão, entendidas como sinais de fraqueza e associadas às mulheres.
 
Produto dessa sociedade patriarcal são absorvidos pela ideia de supremacia masculina, e encorajados a tornar-se homens violentos, bestializados e intolerantes que rebaixam suas parceiras e são incentivados a violência contra as mulheres, uma escala ascendente de gravidade, iniciando com as piadas depreciativas, assédios, abusos, estupros e culmina com os feminicídios.
 
A aversão e o menosprezo às mulheres está no coração desta ideologia que vem transformando o machismo em ação política.
 
E quando pensamos que já encaramos muitas formas de machismo, ou que isso é matéria exclusiva dos homens, somos surpreendidas por outras mulheres que reproduzem o machismo em suas atitudes e pensamentos dando sua versão de várias formas, principalmente quando vemos mulheres atacando outras mulheres usando o gênero como uma questão para rebaixá-las, por exemplo, quando mulheres reforçam a desigualdade de distribuição das tarefas domésticas, ao pedir para que meninas ajudem a arrumar a mesa, enquanto meninos saem para brincar.
 
A resposta às mulheres que reproduzem esse comportamento machista não deve ser a raiva, e sim a compaixão.
 
Assim, o feminismo não é machismo às avessas: é a luta pela igualdade de direitos, e portanto, é uma ideia de combate contra o que inferioriza e oprime as mulheres.
 
Assim, abordamos muitos assuntos num único texto, e precisamos falar mais sobre alguns.