Eliade Pimentel

25/06/2021

 

O capuccino, o pippo’s e a vodca

 

Acordo numa segunda-feira com o pensamento no capuccino que eu intencionava experimentar num novo café que abriu no Shopping 10, situado no icônico bairro do Alecrim. Eu estava programada para dar umas bandas pelo comércio e ir ver meu irmão, na nossa casa localizada na mesma rua. Fui lá conferir as novas. Senti quase como uma obrigação após ter visto uma influencer - que já é considerada a diva do Alecrim - perambulando por esse bendito café, em seus stories. Confesso que fiquei curiosa. Vi umas sobremesas apetitosas e taças de café aparentemente deliciosas. 

Tenho esse jeito de dar minha nota aos cafés: peço um capuccino. Não desejei taças, nem tortas. Cheguei e nem perguntei o preço. Quero um capuccino pequeno. Fiquei no balcão, assuntando... Ei, moça, é pozinho Santa Clara é? (Eu havia visto a placa com a propaganda). E ela, mexendo vigorosamente a xícara, confirmou. Bem, sentei-me diante de uma vidraça, acomodei meus pacotes, mochila etc, e degustei o meu tão desejado capuccino mais meia boca dos últimos tempos.

Lembrei que no pavimento superior do mesmo shopping, tem uma lanchonete equipada com aquelas cafeteiras fumegantes, que extrai um expresso de ótima qualidade sobre o qual é acrescida a espuma do leite, devidamente pulverizada com canela. Combinação perfeita. O arremedo com pozinho eu faço em casa. Esse pequeno ato em minha vida me fez refletir sobre as coisas tradicionais, que nem sempre levam o devido crédito, ou recebem a divulgação justa, em detrimento de coisas novas, nem sempre tão boas. Mas, meu otimismo me leva a apostar no novo, para que eu tenha sempre a visão dos dois lados.

Eu aponto também outro aspecto das questões de hoje, uma constatação, o poder de resgate da existência humana contida no tradicional salgadinho “pippo’s” sabor bacon. Estou indo ali, aviso, e recebo uma encomenda. Na volta, nem escolho o sabor, recebo o pacote que atendente me entregou. A moça recebe e responde com surpresa que acertei. Eu não, a vida. Questionei a qualidade da alimentação, ouço com admiração que faz parte do processo de autocomiseração. É como se representasse o fundo do poço. A parte que me vi sorrindo com satisfação foi que aquilo era do meu tempo e continua fazendo parte da gente de sua idade.

Representando as mil e uma possibilidades da vida, entra a vodca. Bebida forte, de sabor neutro, que combina com tudo. Assim confirmam seus admiradores. Seus bebedores. Com liseu no bolso, inclusive, pois encontramos marcas bem baratinhas. Ela pode significar fuga, liberdade, também pode ser ostentação, embriaguez, balbúrdias, festas, juventude. Representa às vezes um nível abaixo de quem está realmente no nível acima, por onde transita o gim.

Concluo que temos cada qual nossas balizas. Eu escolho uma bebida universal para enxergar o ponto de globalização de um tipo de estabelecimento que eu amo frequentar, no entanto, elejo a mais antiga, tradicional e despretensiosa cafeteria como a que mais detém o elemento que eu busco. Faço a remissão de um salgadinho cheio de química, porque de repente modula a ansiedade nível hard de uma jovem artista. E por fim, eu mesma, que não sou afeita às chamadas bebidas quentes, dou a entender que fui convencida de que posso mudar meus conceitos e aceitar as condições que às vezes a vida me oferece.

Se está difícil chegar ao desfecho de meus devaneios, é bom lembrar que falo das questões da vida simples e saudável, e ter soluções práticas estão bem cotadas nesse meu estilo de vida. Aproveito para dizer que gosto de palavras aportuguesas, mas também gosto de palavras e expressões em seu idioma de origem. Faz a gente ampliar nossos horizontes para o conhecimento de mundo. Capice? Em tempo, na internet se acha a receita da mistura caseira para capuccino.