Eliade Pimentel

02/08/2021
 
Baía Formosa, será que agora vai? 
 
Nessas duas décadas que frequento Baía Formosa, tenho presenciado uma certa rotina acontecer. A economia da cidade gira em torno da pesca, do surf, da usina de cana de açúcar e do turismo. Quase todas essas atividade têm características sazonais, porém eu enxergo que o surf, exatamente a menos explorada como potencial econômico, é a que poderia render mais recursos, de maneira mais perene, e o mais importante, de forma muito mais sustentável. Porém, pouco ou quase nada tem sido apostado nessa possibilidade. 
 
Todo mundo fala e espera que agora Baía Formosa finalmente vai chegar lá, só que não sei qual o rumo que a cidade vai tomar com suas belezas naturais sendo agredidas e mais um conjunto de fatores que a tem destruído pouco a pouco. Seja a coleta de lixo irregular, sejam obras inúteis, sejam muralhas à beira-mar, enfeiando tudo ao redor, como eu vi agora um terrível muro no Pontal (pico de surf mais famoso da cidade), o local que deveria ser tratado como menina dos olhos de BF, sendo tratado com tamanho descaso e mau gosto.   
 
A terra do ouro olímpico do surf Ítalo Ferreira é uma máquina de fazer ondas e funciona o ano todo, de janeiro a dezembro, em todos os seus picos. Porto, Picão, Esquerdinhas (rua da Cacimba), Pontal, Mar Aberto, Farol, Point etc e tal... E ainda tem Sagi... E pegue onda. A gente viaja por outras praias que não têm uma escola de surf natural como vemos na praia do Porto, mas as pessoas dão aulas em ondas perigosas, como na praia do Amor, na Pipa. Em BF, na mesma onda que Ítalo aprendeu, não temos uma escola que ofereça aulas para turistas. 
 
Há professores de surf na cidade, mas é necessário que se conheça alguém que indique, pois não há incentivo para que os turistas busquem outra experiência que não sejam as mesmas, anos após anos. Volto a bater numa tecla, num assunto que eu sempre digo, o problema de Baía Formosa não é o pequeno fluxo de turistas e sim a melhor distribuição dos visitantes que vão a BF via agências de turismo, a maioria para para passar o dia. 
 
Sabe quando passeamos pela praia de Ponta Negra e nos oferecem mil e um passeio? Pipa, Maracajaú, Baía  Formosa... Pois é. Todos os dias, em todos esses anos que frequento a cidade, a rotina se repete. De janeiro a janeiro, às vezes mais, às vezes menos, claro, devido à sazonalidade da atividade, um único estabelecimento da cidade recebe as excursões. Lá, algumas pessoas ficam para usufruir do espaço, outras fazem passeios de buggy até Sagi. E em todo esse tempo, o restante da cidade de Baía Formosa, se for dia de semana, mal vende uma água de coco. 
 
Por falar nisso, até hoje não se tem um plano de manejo do nosso  importante remanescente de Mata Atlântica, a RPPN conhecida como Mata Estrela. Portanto, fica dificil a sociedade se beneficiar de algo cuja capacidade de usufruto não foi mensurado. O que os proprietários determinam, fica sendo dito. Ninguém contesta, nem mesmo a prefeitura. Então, não se usufrui de um patrimônio mundial como deveria, no sentido do turismo ecológico e pedagógico. 
 
Mesmo com com um potencial turístico incrível, como o próprio nome diz, com tantas belezas naturais, dotada de uma gastronomia praieira bem própria, a cidade caminha ao contrário do que eu enxergo como desenvolvimento sustentável. Não é raro as pessoas fazerem comparações com Pipa e com São Miguel do Gostoso, destinos muito mais procurados do que a (quase) pacata BF. 
 
Mas, a grande diferença é a estética. Muito do que se vê em Pipa e SMG é fofo, é gracioso. Em BF, um bocado de coisa é tosca. O esgoto que escorre feito cachoeira poluindo a praia dos pescadores e do surf é cartão postal do terror. Já teve gestor que passou oito anos no poder, cavucou a cidade, deixou a obra de saneamento inacabada e babau tia chica. O que assumiu na sequência alegou falta de prestação de contas do antecessor, de modo que ele diz que não conseguiu mover uma palha sequer para concluir a obra. 
 
E como se fosse pouco tanta feiúra provocada pela mão humana, a atual gestora quebrou a marretadas uma obra que estava sendo feita exatamente no trecho que dá vista para a baía, única do Rio Grande do Norte e que dá nome à cidade. Passados seis meses, a rua ainda está esburacada, colocando em risco a falésia. Então, é com tristeza que eu afirmo que Baía Formosa, a cidade que eu aprendi a amar, parece que agora sim, vai, só que para lugar nenhum além do lugar em que a cidade já está. Refém do mau gosto de muitos e do descaso. 
 
Para vocês terem ideia, para eu ter certeza do horário do ônibus eu mobilizei mil e um contatos numa tarde de domingo, pois não existe um setor na cidade com informações turísticas. E não há fiscalização de nada, nem incentivo para que se visite a cidade e seus pontos turisticos a pé, ou de transporte público. 
 
O surf sim poderia ser a redenção da cidade, desde que se cuide das praias, pois é no mar que se pratica o esporte. Infelizmente, com construções horrorosas na praia, com muralhas enfeiando tudo ao redor, com sujeira em todo lugar, e principalmente com a falta de visão dos gestores públicos e com os maus hábitos dos seres humanos, BF vai deixar de ser taxada de estagnada para começar a ser vista como decadente. Mas, enquanto há ouro, há esperança. Quem sou eu para dizer o contrário.